segunda-feira, 24 de julho de 2023

O Filho - Superior aos Profetas

 'Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho." (Hebreus 1:1-1:2a)


Todos sabemos que há dois Testamentos - o Antigo e o Novo. Esses testamentos representam duas dispensações, duas formas de adorar, dois tipos de religião, duas maneiras por meio das quais Deus interage com o homem e o homem aproxima-se de Deus. Um testamento foi provisório, temporário, preparatório e estava destinado a passar. O que ele forneceu e fez não estava destinado a satisfazer, mas apenas despertar a esperança de algo melhor que estava por vir. O outro foi o cumprimento daquilo que havia sido prometido, e estava destinado a permanecer para sempre, porque era em si mesmo uma revelação completa de uma redenção eterna, de uma salvação no poder de uma vida eterna.

Em ambos - Antigo e Novo testamentos - foi Deus quem falou. Os profetas, no Antigo, e o Filho, no Novo, foram igualmente mensageiros de Deus. Deus falou nos profetas não menos verdadeiramente do que falou no Filho. Todavia, no Antigo, tudo era exterior e mediado pelos homens. Deus não podia entrar e tomar posse do homem e habitar nele. No Novo, tudo é mais direto e imediatamente divino, tudo é realizado por meio de um poder, realidade e vida interiores dos quais o Antigo Testamento era apenas sombra e esperança. O Filho, que é Deus, leva-nos até a verdadeira presença de Deus. E por que Deus não se revelou desde o princípio no Filho? Por que não poderia revelar-se no Filho desde o princípio? Por que foram necessários esses dois tipos de adoração e de serviço a ele? A resposta tem dois aspectos. Para que o homem pudesse de fato apropriar-se do amor e da redenção de Deus de forma inteligente e voluntária, ele deveria ser preparado para isso.

Ele necessitava primeiramente conhecer sua total impotência e condição de miséria, sem esperança, em que se encontrava.

Dessa forma, seu coração seria despertado com o verdadeiro desejo e a esperança de receber e valorizar aquilo que Deus tinha para dar.

Quando Deus nos fala em Cristo, ele o faz como o Pai que habita no Filho. "As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo, mas o Pai que permanece em mim faz as suas obras". Assim como o falar de Deus em Cristo era interior, da mesma forma Deus ainda não pode falar conosco de outra maneira. As palavras externas de Cristo, assim como as palavras dos profetas, servem para nos preparar e nos apontar para aquele falar interior do Espírito Santo no coração, o único falar que é vida e poder. Esse é o verdadeiro falar de Deus em seu Filho.

É de extrema importância para nossa vida espiritual que entendamos corretamente esses dois estágios do trabalhar de Deus com o homem. De duas maneiras, não de uma somente; não em mais de duas; de duas formas Deus falou. Essas duas formas de falar indicam essencialmente o caminho de Deus para cada cristão. Após a conversão de um homem, há um tempo de preparação e teste que se destina a verificar se ele voluntariamente e de todo coração sacrifica tudo em prol da bênção plena. Se nesse estágio ele persevera em um esforço e empenho sinceros, ele será levado a aprender as duas lições que o Antigo Testamento deveria ensinar. Ele se tornará mais profundamente consciente de sua própria impotência e será despertado o forte desejo por uma vida melhor, o desejo de ser encontrado na revelação plena de Cristo, como aquele capaz de salvar completamente. Quando essas duas lições são aprendidas - a lição de desesperar de si mesmo e a lição de ter esperança em Deus somente - a alma está preparada e desejará render-se em fé à condução do Espírito Santo para verdadeiramente entrar na vida além do véu do Novo Testamento, no próprio Santo dos Santos, assim como nos é mostrado na Epístola aos Hebreus.

Quando, devido a um ensino inadequado, ou por causa de negligência e indolência, os cristãos não compreendem a maneira de Deus conduzi-los até a perfeição, a vida cristã será sempre repleta de fraquezas e falhas. Foi assim com os cristãos hebreus. Eles pertenciam ao Novo Testamento, mas sua vida não demonstrava o poder e a alegria que Cristo veio revelar. Eles estavam muito aquém daquilo que muitos santos do Antigo Testamento haviam sido; e a razão disso foi que desconheciam o caráter celestial da redenção que Cristo trouxe.

Eles desconheciam o lugar celestial onde Cristo ministra, não conheciam nem a bênção celestial que ele concede, nem o poder celestial por meio do qual ele assegura que desfrutemos dessas bênçãos. Eles desconheciam a diferença entre os

profetas e o Filho; desconheciam o significado de Deus agora nos ter falado no Filho. O objetivo da epístola é colocar diante de nós o sacerdócio celestial de Cristo e a vida celestial à qual ele nos dá acesso por meio de seu poder divino. É isso que concede a essa epístola seu valor inestimável e eterno; em outras palavras, é seu ensinamento sobre como sair do estágio elementar, primário, da vida cristã para aquele estágio em que

temos pleno e perfeito acesso a Deus.

Devemos entender e apegar-nos firmemente na diferença entre esses dois estágios. Em um, a ação do homem é mais proeminente: Deus fala nos profetas. No outro, a presença e o poder divinos são revelados mais plenamente: Deus fala no Filho, o que possui e traz a própria vida de Deus e nos conduz a um contato vivo com o próprio Deus. Em um, são as palavras humanas que ocupam e influenciam e nos ajudam a buscar Deus; no outro, a Palavra divina, que habita em nosso interior, revela seu poder dentro de nós. Em um, trata-se de uma multiplicidade de pensamentos e verdades, de ordenanças e

esforços; no outro, trata-se da simplicidade e da unidade do único Filho de Deus e da fé nele somente.

Quantos buscaram encontrar Deus por meio do estudo e da meditação e aceitação das palavras da Bíblia e fracassaram! Eles desconheciam que essas coisas não passavam de indicações que apontavam para o Filho vivo - palavras provindas, de fato, de Deus, muito necessárias e proveitosas, contudo insuficientes.

Isso somente nos concede bênção verdadeira quando nos leva a ouvir o próprio Deus falando em seu Filho.

1. Nenhum de nós se contente em permanecer no estágio inferior.

Possamos ver que Cristo nos dá comunhão com Deus pelo Espírito

Santo. Deus nos chama para isso; Cristo habita nos céus para realizar essa obra pelo Espírito Santo que ele nos concede do céu.

2. É possível que alguém conheça muito a Bíblia e as palavras de

Deus e permaneça fraco. Precisamos, de fato, conhecer a Palavra viva, em quem Deus fala em nosso interior, em vida e poder.

3. Todos os profetas apontam para o Filho como o verdadeiro Profeta. Possamos tomá-los de fato como nossos mestres para revelar Deus em nós.

4. Ao proferir uma palavra, desejo que seu significado e força penetrem naquele a quem me dirijo. Nestes últimos dias, Deus tem uma única palavra. Ele deseja que tudo o que essa palavra é e significa entre e viva em nós. Abramos nosso coração e Deus falará "Este é o Meu Filho" de tal forma que ele será nosso completamente.


(Exposição aos Hebreus, por Andrew Murray)


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