quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Perverso Coração de Incredulidade

 "Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer um de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo." (Hebreus 3:12)


O grande e prático objetivo da Epístola aos Hebreus é chamar-nos para a fé. É sob esse ponto de vista que a epístola nos mostrará quão firme terreno para nossa fé temos na palavra e no juramento de Deus, na pessoa e no poder de nosso Sumo Sacerdote celestial. A epístola nos lembrará como a incredulidade tem sido a causa de todo o afastamento de Deus e de todo o fracasso em entrar no gozo de sua promessa e de seu descanso, uma vez que, em todas as épocas, a fé tem sido o poder no qual os santos de Deus têm vivido e trabalhado. No capítulo anterior, o escritor disse "guardando firme a ousadia e exultação da esperança"; aqui, pela primeira vez, ele usa a palavra "crer" no chamamento para guardar-se de um coração de incredulidade.

"Perverso coração de incredulidade". Pense por um momento no significado dessa expressão. Observe primeiramente o lugar que o coração ocupa na religião. Nós ouvimos a advertência

(v.7), "Não endureçais o vosso coração". Deus fala no coração e é no coração que ele deseja conceder-nos sua bênção. Deus faz uma denúncia a respeito disso: "eles sempre erram no coração;

eles também não conheceram os meus caminhos". O coração que anda erroneamente não pode conhecer os caminhos de Deus. Assim, mais uma vez, aqui é o coração perverso que não pode crer que se afasta do Deus vivo. Possamos em nosso estudo da Epístola aos Hebreus e em toda a nossa vida religiosa ter o cuidado de não nos regozijar em pensamentos belos e bons sentimentos enquanto o coração, com seus desejos e vontade e amor, ainda não foi totalmente entregue a Deus. Em nosso relacionamento com Deus, tudo depende do coração. É com o coração que o homem crê e recebe a salvação de Deus.

"Perverso coração de incredulidade". Muitos pensam e falam da incredulidade como uma fragilidade; eles desejam crer, mas não se sentem aptos para isso; afirmam que sua fé é muito fraca.

E, obviamente, não possuem qualquer sentimento de culpa ou vergonha por causa disso, consideram sua incapacidade para fazer algo como uma desculpa suficiente para não fazer.

Deus pensa de forma diferente. O Espírito Santo fala de um perverso coração de incredulidade. O coração é o órgão que Deus criou no homem para manter comunhão com ele. A fé é a primeira função natural do coração; por meio da fé e do amor, o coração vive em Deus. A fé é o ouvido que ouve a voz de Deus, o olho que pode continuamente ver a Deus e também ao mundo invisível, a capacidade de conhecer e receber tudo o que Deus pode transmitir. A fé começa com a confiança na

palavra falada e cresce transformando-se em comunhão com a Pessoa que fala; seu fruto é o recebimento de tudo o que Deus tem para dar.

O pecado desviou a atenção do coração do invisível para o visível, de Deus para o eu; e a fé em Deus perdeu o lugar que deveria ocupar e tornou-se uma fé no mundo visível e seus bens. Agora, a incredulidade, quer declarada e definida, quer mais secreta e inconsciente, é o grande sinal de um coração perverso, a grande prova do pecado, a grande causa das trevas e condenação eternas. Nenhuma outra advertência deve ser proferida em mais alta voz para a igreja cristã do que esta que nos é feita na Epístola aos Hebreus: "Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer um de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo".

"Que vos afaste do Deus vivo". Essa é a terrível perversidade da incredulidade; ela incapacita o homem para manter comunhão com Deus como o Deus vivo. A expressão o "Deus vivo" ocorre quatro vezes na Epístola aos Hebreus. No Antigo Testamento, essa expressão era usada para contrastar Deus com os ídolos mortos, que não podem ouvir ou falar ou socorrer.

Infelizmente, inúmeras vezes pessoas que se denominam cristãos possuem, no lugar de uma imagem esculpida, o ídolo mais perigoso de uma imagem em forma de pensamento: uma concepção mental à qual rendem adoração. O Deus vivo falando em seu Filho, ouvindo-os quando eles falam, operando neles sua poderosa salvação, o Deus vivo que ama e é amado, esse Deus eles desconhecem. Em toda sua profissão cristã e práticas religiosas, há um perverso coração de incredulidade que os afasta do Deus vivo.

Aceitemos essa advertência. Antes de entrarmos na verdade mais profunda que a epístola tem para nos ensinar, possamos aprender bem nossa primeira lição: o que Deus procura, o que precisamos receber, a plenitude das bênçãos que nosso Sumo Sacerdote tem para nós e aguarda para conceder-nos é um coração de fé, um coração verdadeiro que se aproxima de Deus em plenitude de fé (Hb 10:23). Tende cuidado - ouça atentamente - jamais aconteça haver em qualquer um de vós - nem por um instante sequer -, perverso coração de incredulidade. Possamos nos desfazer de tudo o que pode causar ou mesmo fortalecer esse tipo de coração, seja algo mundano ou alguma formalidade, pouco conhecimento ou muito conhecimento mental da Palavra de Deus, olhar pouco para o estado de nosso coração ou muita ocupação com o eu - tomemos cuidado, para que não haja jamais em nós um perverso coração de incredulidade. Que um coração terno, atento à voz de Deus, ouvindo a sua palavra e nela confiando, seja sempre o sacrificio que trazemos para Deus.

Com o coração, o homem acredita em Deus ou no mundo.

Exatamente como o nosso coração também é a nossa fé e nossa vida. Nossa alegria por causa da pessoa de Cristo, nossa força e frutificação espirituais, nossa proximidade de Deus, nossa experiência de seu operar em nós, tudo depende do estado de nosso coração, não de fatos únicos e isolados de fé. Portanto, Deus sopra em nós o espírito de fé para manter nosso coração sempre terno e aberto para ele. Acima de tudo, guardemo-nos de um perverso coração de incredulidade.

Se tão somente soubéssemos como obter e aumentar uma fé viva e verdadeira! Observe a conexão. Assim como a incredulidade nos afasta do Deus vivo, a fé nos aproxima dele e é alimentada e nutrida em Sua presença. Pratique a presença de Deus em profunda humildade e quietude de coração.

Tenha sede de Deus, sede do Deus vivo. "Somente em Deus, ó minh'alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança". Ele é o Deus vivo. Ele vê e ouve e sente e ama. Ele fala e dá e opera e revela a si mesmo. Sua presença desperta e fortalece e satisfaz a fé. Incline-se em humilde meditação e adore diante do Deus vivo, e a fé despertará e crescerá na ousadia e na expectação da esperança. Ele é o Deus vivo, Aquele que dá vida, ele é a fonte de vida para aqueles que dele

se aproximam: permaneça um longo tempo em Sua presença, somente isso, e nada mais além disso, o libertará do perverso coração de incredulidade.

1. Incredulidade e afastar-se do Deus vivo: lembre-se dessa íntima conexão. Elas agem e reagem uma à outra.

2. A fidelidade de Jesus enche o coração com a plenitude de fé.

Você está lembrado da lição? Aqui ela se repete: aproximar-se do Deus vivo encherá o coração com uma fé viva. E a epístola nos ensinará como Deus aproxima-se de nós em Jesus, e como, em Jesus, nós nos aproximamos de Deus.

3. Nunca fale ou pense da incredulidade como uma fraqueza, mas sempre como o pecado dos pecados, a mãe frutífera de todos os pecados.

4. O Deus vivo no céu e o coração que crê na terra, esses são os dois poderes que encontram e satisfazem um ao outro. Possa sua fé conhecer nenhuma outra medida ou limite, senão o Deus vivo.

Possa sua fé ser uma fé viva em um Deus vivo.



(Por Andrew Murray - fragmento da exposição da epístola aos hebreus - The Holiest of All: An Exposition of the Epistle to the Hebrews: em domínio público)


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