Contra a Indolência, Falta de Progresso e Apostasia
O Pecado de Não Progredir na Vida Cristã
"Tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. A esse respeito,
temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes novamente necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos
de Deus; assim, vos tornaste como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança." (Hebreus 5:10-13)
No texto da Epístola aos Hebreus que ora consideramos, nos é apresentada a terceira dentre as cinco advertências encontradas na epístola. A primeira advertência foi contra a indiferença e a negligência; a segunda, contra a incredulidade e a desobediência; e a terceira trata especialmente com a indolência, ou preguiça, que impede todo o progresso na vida cristã, incapacita a alma de entrar no pleno significado da verdade e da bênção do evangelho e, frequentemente, conduz a uma completa renúncia da fé.
Na seção anterior da epístola, o autor tratou com o que ele considera verdades mais elementares, ou seja, a divindade e humanidade do Salvador e sua adequação como um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel para a obra que deve realizar a nosso favor. O autor está prestes a entrar no ensino mais elevado que pretende trazer a seus leitores a respeito do sacerdócio celestial de Cristo (Hb 7-10:18), mas sente que muitos de seus leitores são incapazes de entender ou apreciar tal verdade espiritual. Ele sente a necessidade de primeiramente despertá-los por meio de palavras de séria reprovação e exortação, porque nenhum ensinamento é de proveito se o coração não for despertado para ter fome desse ensinamento como um alimento do qual necessita.
Na igreja cristã, há muitos crentes hoje vivendo nessa condição; tais cristãos, infelizmente numerosos, os quais esperamos que sejam, de fato, verdadeiros crentes, estão satisfeitos simplesmente com a ideia de que têm o perdão e a esperança do céu. Eles descansam em sua ortodoxia, sua conexão com a igreja e seus cultos, e em manter um comportamento adequado. Tais crentes, todavia, sequer fazem ideia do que significa ter um desejo mais forte pelas verdades mais profundas da Palavra de Deus e tampouco sabem por que tal desejo é necessário. Quando o escritor da epístola menciona o poder do sangue de Jesus no céu, o abrir do Santo dos Santos, o nosso acesso a esse lugar para ali habitarmos, e sairmos para fora do arraial para encontrá-lo, essas palavras não encontram eco porque não encontram uma alma com tal necessidade. Possa cada leitor ouvir atentamente o que Deus diz a respeito dessa condição.
"Temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir". A queixa do escritor não é que os hebreus não tenham suficiente educação ou capacidade mental para entender suas palavras. De modo algum! Mas as coisas espirituais devem ser discernidas espiritualmente. Verdade espiritual somente pode ser recebida por uma mente espiritual, por um coração sedento por Deus e que sacrifica este mundo a fim de conhecer e desfrutar Aquele que é invisível. Os hebreus estavam satisfeitos com seu conhecimento do Cristo crucificado; pouco lhes atraía o Cristo celestial e seu poder para tirá-los para fora do mundo e de conceder o céu para seu coração.
O escritor continua dizendo: "devido ao tempo decorrido, já devíeis ser mestres". Na vida cristã, todo aquele que progride de fato sente-se constrangido a ensinar a outros. O amor de Cristo em seu coração deve fluir para os que estão ao seu redor. Os hebreus eram cristãos há tanto tempo que já deveriam ser mestres. Mas o oposto disso ocorria com eles.
"Tendes necessidade de alguém que vos ensine quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus". Há um grande número de cristãos cuja vida consiste basicamente em estar sempre aprendendo. Sermões e livros são sua alegria, mas nunca avançam além do estágio de serem alimentados; eles desconhecem o que significa alimentar a outros. Não fazem qualquer esforço para apropriarem-se da palavra de Deus, para serem fortes a fim de dar essa vida para outros. Eles não têm o mínimo desejo de serem libertos do poder do pecado, lhes falta incentivo para obter um conhecimento mais pleno de Jesus e de seu poder celestial.
"Assim, vos tornaste como necessitados de leite e não de alimento sólido". Onde não há fome de alimento sólido - as verdades mais excelentes a respeito do sacerdócio celestial de Cristo - ou onde não há o desejo de usar o que recebeu para ajudar a outros, as faculdades espirituais ficam enfraquecidas e o cristão nunca progride além do estágio do leite, que deve ser dado para os bebês. Na vida cristã, assim como na natureza, há dois estágios a infância e a idade adulta. Na natureza, o crescimento de um estágio para o outro ocorre espontaneamente. No que diz respeito à graça, no entanto, não é assim. É possível que um cristão mantenha-se em uma infância doentia toda a sua vida, sempre necessitando de ajuda ao invés de ser um ajudador. A causa disso é a indolência, relutância em fazer o sacrifício necessário para progredir, falta de desejo de abandonar tudo e seguir Jesus. E isso, mais uma vez, se deve ao erro fatal de pensarmos unicamente em nossa segurança, de estarmos contentes quando alcançamos alguma garantia de nossa segurança. Tal alma não se importa com a bênção celestial da conformação à semelhança de Jesus, de uma comunhão viva com Deus e do privilégio divino de trazer vida e bênção a outros.
Uma das grandes necessidades dos que ensinam em nossas igrejas hoje é ter um entendimento claro a respeito do estado fraco e doentio que vivem muitos cristãos, bem como no que constitui uma vida saudável que avança para a perfeição. À medida que experimentam plenamente o poder do sacerdócio de Cristo transmitido ao coração pelo Espírito Santo, eles serão capazes de reprovar com autoridade e ajudar de fato todas as almas honestas a alcançarem a salvação plena que Cristo trouxe. Possa Deus conceder tais mestres à Sua igreja.
1. Não temos aqui a razão de tão pouca busca verdadeira pela santidade? Tão pouca consagração para viver para abençoar a outros? Tão pouco do poder do Espírito Santo na vida da igreja?
Roguemos a Deus que exponha o mal e visite Sua igreja. Exortemo-nos mutuamente todos os dias para que não descansemos nem fiquemos satisfeitos como nada menos que uma devoção entusiasta e de todo o coração a Jesus.
2. Como preparação para continuar o estudo do santuário interior que será exposto na sequência na epístola (Hb 7 - 10), detenhamo-nos em algo já estabelecido, ou seja, a menos que estejamos, de fato, famintos por justiça e desejando ardentemente uma comunhão mais próxima com Jesus, nosso estudo da epístola nos será de pouco proveito. Oremos a Deus que nos convença de nossa indolência e preguiça, de nossa satisfação com uma graça inicial e que desperte em nós uma sede ardente por ele.
(Por Andrew Murray - fragmento de "The Holiest of All: An Exposition of the Epistle to the Hebrews": em domínio público - tradução livre)
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