"Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles." (Hebreus 2:10)
"Por cuja causa todas as coisas existem". Deus é a Causa Final de tudo o que existe. Tudo existe com o único propósito de manifestar sua glória. Todos os objetos que existem na natureza, quer individual quer coletivamente, foram criados para que a maravilhosa bondade e poder de Deus se manifeste e resplandeça neles e através deles. Essa é a única razão de sua existência. Nesse mesmo contexto, o homem foi criado, acima de tudo, para que ele, que é digno de adoração, tivesse a oportunidade de demonstrar quão plena e livremente Deus o faria participar das riquezas de sua graça e glória.
"Por cuja causa todas as coisas existem", para que neles sua glória e bondade pudessem ser dadas a conhecer. "Digno és tu, ó Senhor e Deus nosso, de receber a glória, e a honra e o poder, pois todas as coisas tu criaste; e por causa da tua vontade todas vieram a existir".
"Por cuja causa todas as coisas existem". Deus é a Causa Eficiente de tudo o que existe. Deus é o fim e o objetivo de todas as coisas, porque ele é seu início e origem. Tudo deve voltar para ele porque tudo veio dele e existe unicamente por meio dele. Não há vida, nem bondade, nem formosura que não volte para ele novamente, a única fonte e origem. "Há somente um Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos". "Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos, e está em todos".
O apóstolo poderia ter escrito: "Porque convinha que Deus aperfeiçoasse por meio de sofrimentos o Autor da salvação deles". Não sem uma boa razão o escritor aos hebreus apresenta em Hebreus 2:10 o caráter no qual Deus agiu ao aperfeiçoar o Filho como líder da nossa salvação. Quando o homem pecou e caiu, afastando-se de Deus, ele perdeu também as duas abençoadas verdades nas quais se apoiava sua relação com Deus: sua fidelidade santa para com Deus, tendo todas as coisas para ele, e sua abençoada dependência de Deus, tendo todas as coisas por meio dele. Em seu lugar veio o reino do eu, o homem passou a viver para o eu e por meio do eu.
Jesus veio nos redimir dessa vida do eu para nos levar de volta para Deus, para que pudéssemos conhecê-lo e honrá-lo como Deus e Pai, "por cuja causa e por quem todas as coisas existem". Ao fazer isso, o Senhor abriu novamente o único caminho que poderia conduzir à glória. Ele fez isso primeiramente mostrando-nos em sua vida, como Homem, como os homens deveriam viver para Deus e por meio de Deus e, então, libertando-nos por meio de sua morte do domínio do pecado, e conquistando para nós o poder da vida celestial.
"Por cuja causa todas as coisas existem". Foi nesse sentido e caráter que Deus aperfeiçoou Cristo por meio de sofrimentos.
Foi nesse caráter que Cristo revelou e honrou a Deus por meio de seus sofrimentos. É para ganhar-nos e levar-nos a conhecer e amar e servir a Deus nesse caráter que Jesus é Salvador.
"Por cuja causa todas as coisas existem". Ao longo de toda sua vida, não há nada que Jesus tenha buscado impressionar mais notadamente em seus discípulos do que o fato que ele era o mensageiro e servo do Paí; que nele não havia qualquer pensamento de fazer sua própria vontade ou procurar sua própria honra; que ele somente fazia o que seria para o prazer e glória do Pai. Ele nos deu o exemplo de um homem sobre a terra vivendo absoluta e inteiramente para Deus no céu. Sua
vida na terra foi a demonstração aqui, em carne, a tradução em linguagem humana, da reivindicação divina: "Todas as coisas são para Deus". Sua fidelidade e obediência a Deus foram absolutas. Ele nos provou que o destino, bênção e glória eterna do homem são encontrados em viver inteiramente para Deus.
"Por cuja causa todas as coisas existem". A vida de Cristo também foi uma demonstração desse fato. Ele não se envergonhava de dizer que nada podia de si mesmo, e que somente podia agir quando o Pai lhe mostrava o que fazer ou falar. Ele considerava sua bênção e sua força o não ser capaz de fazer qualquer coisa de si mesmo, mas, em continuada dependência, esperar em Deus e na operação de Deus nele.
Ele sabia, e nos ensinou, que o homem que disse a Deus com inteira devoção: "todas as coisas são para Deus" pode também dizer confiadamente: "Todas as coisas por meio de Deus".
"Tudo para Deus". "Tudo por meio de Deus". Jesus possibilitou-nos fazer dessas palavras o nosso lema. Em todas as aspirações por um caminhar mais próximo de Deus, em todos os esforços para obter uma vida mais pura, mais verdadeira, uma vida superior, esses são os dois polos entre
os quais a alma deve mover-se. Essas são as duas marcas infalíveis do verdadeiro misticismo bíblico, tão atraente para as almas famintas que anseiam conhecer e agradar a Deus perfeitamente.
Tudo para Deus! Absolutamente tudo, sem exceção de um momento sequer, um pensamento, uma palavra, uma pessoa, um pertence; tudo para Deus, esse se torna o único desejo da alma. Essa alma viu que Deus é digno disso, que ele exige isso, e que nada menos pode satisfazer o coração que Deus criou para ser cheio dEle mesmo.
Tudo por meio de Deus! Quanto mais claro se torna o objetivo de que tudo é para Deus e mais profundamente alma mergulha em sua própria impotência e vazio firmemente convicta de que com o homem é impossível, mais cedo nasce a fé que vê que não somente podemos dizer, mas que ousamos dizer: "Tudo para Deus", porque também podemos afirmar: "Tudo por meio de Deus". O próprio Deus fará com que isso se torne realidade em nós.
Esse é o Deus que se revelou-se em seu Filho. "Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse por meio de sofrimentos, o Líder da salvação deles". Adoremos Ofereçamos a ele o sacrifício da completa obediência e dependência como de uma criança à medida que soam em nosso coração e vida as palavras: Tudo para Deus! Tudo por meio de Deus. Deus é tudo!
1. A prática da presença de Deus é um exercício espiritual bendito e necessário. À medida que a alma prostra-se em silêncio e humildade e adora em silêncio, ela entra no espírito correto para reconhecer sua própria insignificância, e dá-se conta de que Deus é tudo - que tudo é para ele e por meio dele.
2. Tudo é para Deus é consagração. Tudo por meio de Deus é fé. O espírito no qual Cristo rendeu-se a Deus foi consagração e fé.
3. Conhecer e honrar Deus como aquele que aperfeiçoou Cristo é o segredo da perfeição, pois ele pode realizar sua obra em tais pessoas. Esse é o Deus que está conduzindo muitos filhos à glória;
conhecê-lo e honrá-lo é o caminho para a glória. Revelar esse Deus e Seus direitos, mostrar como abandonar tudo por ele - essa foi a razão da vinda de Cristo. Essa é a vida que ele nos trouxe, o caminho que ele abriu, a salvação que ele concede.
(Por Andrew Murray - fragmento da exposição da epístola aos hebreus - The Holiest of All: An Exposition of the Epistle to the Hebrews: obra em domínio público)
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