"Temamos, portanto, que sendo-nos deixada a promessa de entrar no descanso de Deus, suceda que
algum de vós tenha falhado. Porque também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram. Nós, porém, que cremos, entramos no descanso, como Deus tem dito: Assim jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso. Embora, certamente, as obras estivessem concluídas, desde antes da fundação do mundo." (Hebreus 4:1-3)
Vimos que, após sua libertação do Egito, houve dois estágios com Israel: a vida no deserto, uma vida vagueando, com necessidades, incredulidade e murmurações, provocações a Deus e, finalmente, exclusão do descanso prometido. O outro estágio foi a terra da promessa, com descanso em lugar de vaguear no deserto, com abundância ao invés de escassez, e vitória sobre cada inimigo em lugar da derrota. Esses são símbolos dos dois estágios na vida cristã. Um estágio é aquele em que conhecemos o Senhor somente como o Salvador, que nos salvou do Egito, em sua obra na cruz para expiação e perdão. No outro estágio ele é conhecido, plenamente aceito e recebido como o Rei-Sacerdote glorificado no céu, que, no poder de uma vida eterna, santifica e salva completamente, inscreve as leis de Deus em nosso coração e conduz-nos no caminho para que encontremos nosso lar na presença do Deus santo. O objetivo do escritor da epístola nessa seção é advertir-nos a não nos contentar com o estágio anterior, o preparatório; ele nos adverte a mostrar toda a diligência para alcançar o segundo estágio e entrar no descanso prometido de libertação completa. "Temamos, portanto, que sendo-nos deixada a promessa de entrar no descanso de Deus, suceda que algum de vós tenha falhado".
Alguns acreditam que o descanso de Canaã é um tipo do céu. Mas isso não pode ser verdadeiro porque a grande característica da vida em Canaã era que a terra deveria ser conquistada e que Deus concedeu gloriosas vitórias sobre os inimigos. O descanso em Canaã foi para alcançar a vitória por meio da vitória. Isso é também verdadeiro na vida de fé.
Quando a alma aprende a confiar em Deus para alcançar a vitória sobre o pecado e, em todas as circunstâncias de sua vida, rende-se inteiramente para viver exatamente onde e como Ele deseja, então ela entra no descanso. É um viver na promessa, na vontade e no poder de Deus. Esse é o descanso no qual essa alma entra, não por meio da morte, mas por meio da fé; ou melhor, não por meio da morte física, mas da morte para o eu por meio da fé na morte de Cristo.
Porque de fato "também a nós foram anunciadas as boas-novas, como se deu com eles; mas a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram". A única razão por que o povo de Israel não entrou em Canaã foi sua incredulidade. A terra estava esperando: o descanso havia sido provido, o próprio Deus os faria entrar na terra e lhes daria descanso. Todavia, algo lhes faltou: eles não creram e, por isso, não se entregaram a Deus para que fizesse por eles aquilo que havia prometido. A incredulidade fecha o coração para Deus e afasta a vida do poder de Deus. Na verdade, a incredulidade faz com que a palavra da promessa se torne sem efeito. As boas-novas do descanso nos foram pregadas assim como para eles. Na Escritura, temos as
mais preciosas garantias para encontrar descanso para a alma sob o jugo de Jesus, encontrar a paz de Deus que excede a todo o entendimento, uma paz e gozo na alma que nada pode tirar.
Mas, quando não acreditamos nas promessas, não podemos experimentá-las; a fé é por natureza o descansar na promessa e naquele que fez as promessas até que ele cumpra tudo em nós. Somente fé pode entrar no descanso. A plenitude de fé entra no descanso pleno.
"Nós, porém, que cremos, entramos no descanso". Nesse texto, não diz "entrarão". Hoje, como diz o Espírito Santo, aqui e agora, nós, os que cremos, entramos no descanso. O descanso da fé aqui referido é como o que ouvimos a respeito de sermos participantes de Cristo - desfrutaremos da bênção "se guardarmos firme, até ao fim, a confiança que desde o princípio tivemos". A fé inicial, que nos conduz para fora do Egito atravessando o Mar Vermelho, deve ser guardada firme, então chegará à plenitude da fé, que nos leva a atravessar o Jordão e entrar na terra de Canaã.
Possa cada estudante desta epístola entender quão intensamente pessoal é o tom dessas palavras e com que urgência o escritor apela para a fé como a única coisa necessária quando estamos tratando com a Palavra de Deus. Sem fé, a Palavra não tem qualquer proveito para nós. Podemos tentar entrar no significado da promessa por meio de nosso intelecto ou pelo muito estudar, mas Deus jurou que eles jamais possuiriam a terra ou entrariam em seu descanso senão pela fé. Uma coisa Deus nos pede em nosso relacionamento com ele e com sua Palavra: o hábito da fé, que sempre mantém nosso coração aberto para Deus e deseja ardentemente entrar em seu descanso e ali habitar.
Somente a alma sedenta de Deus, do Deus vivo, terá a capacidade espiritual de receber a revelação de como Jesus, o Sumo Sacerdote, leva-nos para a presença de Deus. O ensinamento mais adiante a respeito de entrar no Santo dos Santos nada mais é do que um desvendar mais claro do que aqui é denominado "entrar no descanso". Acima de tudo, tenhamos fé no estudo desta epístola.
Você deseja entrar no descanso? Lembre-se do que nos foi ensinado a respeito dos dois estágios. Eles são representados por Moisés e Josué. Moisés o líder, Josué o aperfeiçoador ou consumador da fé de Israel. Moisés tirou o povo para fora do Egito; Josué os levou para a terra de Canaã. Aceite Jesus como o seu Josué. Não permita que os fracassos passados, e o tempo que andou vagueando e o pecado lhe causem desespero ou satisfação com o que você é. Confie em Jesus, que, por meio do aspergir do sangue, lhe trouxe para fora do Egito a fim de levá-lo definitivamente a entrar no descanso.
Fé é sempre o repousar naquilo que outro fará por mim.
A fé cessa de buscar ajuda em si mesma ou em seus esforços, cessa de perturbar-se com suas necessidades ou fraquezas; a fé descansa na suficiência do Todo-Suficiente, aquele que se encarregou de tudo, que tomou tudo em suas mãos. Confie em Jesus. Desista e abandone o deserto. Siga o Senhor plenamente: Ele é o descanso.
1. Ninguém pense que a vida no descanso da fé é para poucos.
Ainda que eu empregasse todo meu empenho na tentativa de colocar esse importante princípio na mente de cada leitor, mesmo assim seria insuficiente. Deus o chama - sim, você mesmo - para entrar no descanso. Ele o chama para uma vida de inteira consagração.
Se estiver satisfeito por ter sido convertido, sua alma pode estar correndo o mesmo perigo de perecer com o povo de Israel no deserto. "Jurei na minha ira: não entrarão no meu descanso".
2. Se Deus é, de fato, a fonte de toda bondade e bênção, isso significa que quanto mais próximos estivermos dele e quanto mais dele tivermos, mais profundo e completo será nosso gozo. A alma
que não estiver disposta, custe o que custar, a entregar-se a Cristo quando ele se propõe a fazer-nos entrar no descanso de Deus tem razão para temer que sua religião seja simplesmente uma expressão
de egoísmo que busca escapar da punição, e estar satisfeita com o pouco de Deus aqui lhe seja suficiente para assegurar sua entrada no céu futuramente.
(Por Andrew Murray - fragmento da exposição da epístola aos hebreus - The Holiest of All: An Exposition of the Epistle to the Hebrews: em domínio público)
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