"Ora, quais os que tendo ouvido se rebelaram? Não foram, de fato, todos os que saíram do Egito por intermédio de Moisés? E contra quem se indignou por quarenta anos? Não foi contra os que
pecaram, cujos cadáveres caíram no deserto? E contra quem jurou que não entrariam no seu descanso, senão contra os que foram desobedientes? Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade." (Hebreus 3:16-19)
Nos versículos iniciais da Epístola aos Hebreus, vimos que Deus tem duas dispensações, ou maneiras de tratar com o homem, e que essas encontram sua equivalência na vida cristã.
Há cristãos que sempre caminham sob o crepúsculo e cativeiro do Antigo Testamento; há outros que verdadeiramente conhecem a alegria e o poder do Novo Testamento e têm comunhão com Deus, não como por meio dos profetas, mas verdadeira e diretamente no próprio Filho de Deus.
Nas palavras que meditaremos neste capítulo, a mesma verdade nos é dada, mas sob outro aspecto. O escritor já apresentou Cristo como superior a Moisés. Isso lhe dá oportunidade para falar em um tom de séria advertência a respeito do povo de Israel que saiu do Egito. Nem todos entraram em Canaã. Houve uma separação entre aqueles que Deus havia redimido e tirado para fora do Egito, alguns pereceram no deserto; outros, de fato, entraram e possuíram a terra prometida. Nos é dito que a causa do fracasso em entrar na terra de Canaã foi a desobediência derivada da incredulidade. Quando Deus ordenou ao povo que subisse e possuísse a terra, eles deram lugar ao medo. Eles não creram na promessa de Deus e foram desobedientes. Incredulidade é sempre a causa da desobediência; eles não puderam entrar por causa da incredulidade e desobediência.
A história do povo de Israel tem um profundo significado espiritual e ensina uma lição muito séria. No capítulo 3, já ouvimos duas vezes que não é suficiente iniciar bem, devemos apegar-nos firmemente até ao fim. Nos é dito a respeito do povo de Israel que "pela fé celebrou a Páscoa e o derramamento de sangue; pela fé atravessaram o mar Vermelho". Houve uma fé inicial para sair do Egito. Mas, quando foram testados para ver se "guardariam firme até ao fim a confiança que desde o princípio tiveram", a grande maioria fracassou. Sua fé durou por um tempo apenas, eles tiveram fé para sair do Egito, mas não a tiveram para entrar em Canaã.
Entre os hebreus, havia cristãos que se encontravam na mesma condição. Eles haviam começado bem, mas encontravam-se impedidos, embaraçados. Alguns estavam parados, outros já haviam voltado atrás. Semelhantemente, há muitos cristãos em nossas congregações que nunca progrediram além da fase inicial de sua conversão. Eles afirmam saber que Deus os salvou do Egito. Eles estão acomodados com o fato de ter um dia se convertido ao Senhor. Não há qualquer desejo sincero, nenhum propósito determinado de seguir adiante para uma vida de santidade, nenhuma prontidão para entrar na terra prometida do descanso e da vitória a qualquer custo.
Quando Israel estava prestes a entrar na terra de Canaã, Moisés disse: Ele "dali nos tirou para nos levar e nos dar a terra". Devemos sentir temor pelo fato de haver muitos cristãos que separam aquilo que Deus uniu. De bom grado são trazidos para fora da terra da escravidão, mas não estão prontos para andar todo o caminho com Deus e entrar na terra e vencer cada inimigo. Estão felizes por terem sido libertados da escravidão, mas não anseiam por tornarem-se santos e viver uma vida de separação e serviço. Eles não dão ouvidos para a voz que os chama para entrar no descanso de Deus, ao contrário, endurecem seu coração.
Não foi no Egito - e isso deve ser enfatizado -, mas na fronteira da terra de Canaã que os homens de Deus começaram a endurecer seu coração. Em nossos dias, é entre cristãos que professam ser convertidos, que não somente iniciaram a vida cristã, mas fizeram até mesmo algum progresso, que
encontramos dureza de coração. O chamamento à santidade, o chamamento para cessarem de vaguear e murmurar e entrar no descanso de Deus, o chamamento para a vida de vitória sobre cada um dos inimigos e para servir a Deus na terra da promessa não é obedecido. Eles dizem que isso é algo muito elevado e muito difícil. Eles não creem com Calebe que "nós podemos possuir a terra"; eles temem o sacrifício que terão de fazer para isso e apegam-se à vida carnal. Ao não ouvir a voz de Deus, seu coração se torna endurecido. Deus jurou que não entrariam no Seu descanso.
É impossível usar da seriedade necessária para conclamar cada leitor a aprender bem os dois estágios do cristão. Existe o cristão carnal e o cristão espiritual; há aqueles que permanecem bebês e os que se tornam homens adultos, maduros. Há aqueles que saíram do Egito, mas depois permaneceram no deserto de uma vida mundana. Há aqueles que seguem o Senhor completamente e entram na vida de descanso e vitória.
Possa cada um de nós descobrir onde está e, atentando zelosa e seriamente às advertências de Deus, de todo o nosso coração prossigamos após Jesus, seguindo-o até o fim, procurando
permanecer perfeita e cabalmente em toda a vontade de Deus.
O que significa todas as advertências em nossa epístola, especialmente dedicadas a desvendar a vida celestial e o poder, a salvação completa de nosso grande Sumo Sacerdote?
Significa que nenhum ensinamento a respeito do que Cristo é pode ser de proveito a menos que nosso coração esteja pronto e deseje segui-lo plenamente. A epístola resumirá todos os seus ensinamentos no chamamento para entrar no Santo dos Santos, no descanso de Deus. Mas o escritor deseja que tenhamos o profundo sentimento de que não podemos entrar exceto no caminho da fé e da plena obediência, exceto com um coração pronto a abandonar toda a sua vontade para seguir aquele que suportou a cruz, um coração que não estará satisfeito com nada menos do que tudo o que Deus deseja dar.
1. Eles não puderam entrar por causa da incredulidade. "Tende
cuidado, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade". Tudo depende da fé. Permita que a fé seja exercitada em cada etapa do ensinamento da epístola que estudamos. Fé no Deus que nos fala; fé no bendito Filho, no poder divino e na proximidade que a tudo permeia, na qual ele opera, em Sua verdadeira humanidade e na vida celestial que ele aperfeiçoou para nós e a concede desde o céu; fé no Espírito Santo que habita em nós e é o poder de Deus operando em nós. Permitamos que a fé seja o hábito de nossa alma, cada suspiro de nossa vida.
2. "Por causa da incredulidade". Em resposta ao nosso "por quê?", estas são exatamente as palavras que Jesus empregou: "Por causa de sua incredulidade". Cultivemos a profunda convicção de que a incredulidade está na raiz de toda desobediência e fracasso, está na raiz de toda fraqueza e problemas na vida espiritual. Não pense que existe um mistério inexplicável por que nossas orações não são atendidas; é simplesmente incredulidade que não confia em
Deus, não se entrega para Deus completamente, que não permite
que Deus realize o que promete. Deus nos livre da incredulidade!
(Por Andrew Murray - fragmento da exposição da epístola aos hebreus - The Holiest of All: An Exposition of the Epistle to the Hebrews: em domínio público)
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