"Acheguemo-nos, portanto, confiadamente junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna." (Hebreus 4:16)
Nos primeiros dois capítulos da Epístola aos Hebreus, a verdadeira divindade e a humanidade real de nosso salvador nos foram apresentadas como o fundamento da nossa fé e vida.
Nos dois versículos que consideramos no capítulo anterior, essas duas verdades são empregadas ao sacerdócio de Cristo.
Tendo um grande Sumo Sacerdote que penetrou os céus, tendo um grande Sumo Sacerdote que é capaz de compadecer-se; acheguemo-nos. Uma das obras do Sumo Sacerdote é aproximar-nos de Deus. O objetivo de revelar-nos sua pessoa e obra é dar-nos perfeita confiança para nos achegarmos. O grau de intimidade com que nos achegamos a Deus revela nossa medida de conhecimento da pessoa de Jesus.
"Portanto", tendo tal Sumo Sacerdote, "acheguemo-nos confiadamente junto ao trono da graça". A palavra achegar-se é usada para os sacerdotes do Antigo Testamento. É essa verdade que a epístola procura reforçar, ou seja, que nós podemos, de fato, em realidade espiritual, achegar-nos a Deus e viver nessa proximidade em uma comunhão viva com ele ao longo do dia. A obra de Cristo como nosso Sumo Sacerdote é tão perfeita e seu poder no céu é tão divino que ele não somente nos concede o direito e a liberdade de achegar-nos, mas, por meio de sua ação como Sacerdote, ele, de fato e de verdade, toma posse de nosso ser interior e de nossa vida interior e nos atrai e nos aproxima de Deus de forma que nossa vida pode ser vivida na presença de Deus.
"Acheguemo-nos". Essa expressão ocorre duas vezes na epístola - 4:16 e 10:21; sua repetição é importante. Na segunda passagem, após a exposição das verdades mais profundas a respeito do verdadeiro santuário, do véu que foi rasgado e do caminho que se abriu para Santo dos Santos, a palavra "acheguemo-nos" refere-se à entrada do crente na bênção plena de uma vida vivida na presença de Deus no poder do sacerdócio celestial de Cristo. No versículo que ora consideramos, esse ensinamento ainda não foi exposto na epístola, por isso, nesse contexto, a palavra "acheguemo-nos" refere-se simplesmente à oração, a achegar-se ao trono da graça. Esse chamamento é colocado de forma compreensível ao mais fraco dos cristãos.
Quando somos fiéis no pouco, ou seja, quando gastamos tempo diante do trono de graça em oração, encontraremos acesso ao que é maior - a vida além do véu, no pleno poder de nosso Precursor que entrou por nós.
"Acheguemo-nos para receber misericórdia". Essas palavras fazem referência à compaixão que necessitamos quando a consciência de pecado, culpa e indignidade nos abate. Ao achegar-nos em oração ao trono da graça, ao trono de misericórdia, primeiramente recebemos misericórdia, experimentamos que Deus perdoa, aceita e ama. "E encontrarmos graça para ocasião oportuna". Isso se refere ao fortalecimento de nossa vida interior por meio da qual Jesus, que foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança, nos encontra e nos capacita para vencer a tentação. Graça é o poder divino operando em nós. "Minha graça te basta; o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza". O Espírito Santo é o "Espírito da graça". Aquele que pede com fé diante do trono da graça não somente recebe misericórdia, a consciência de aceitação e favor, mas encontra graça naquele Espírito cuja operação o Pai sempre se compraz em conceder. Aquela graça é "para ocasião oportuna", literalmente, "ajuda no momento certo", exatamente a ajuda especial de que necessitamos para cada momento. A infinita misericórdia do amor de Deus repousando sobre nós e a graça todo-poderosa de seu Espírito operando em nós, sempre serão encontradas no trono da graça se tão somente nos achegarmos com ousadia, confiando unicamente em Jesus.
Na sequência, temos a palavra principal: "Acheguemo-nos, portanto, confiadamente". Já nos foi ensinado que devemos apegar-nos firmemente com ousadia. Posteriormente, seremos advertidos a não nos desfazer de nossa ousadia. E o resumo de toda a epístola nos dirá que o grande fruto da redenção de Cristo é que temos ousadia para entrar. Essa expressão está colocada na forma mais elevada de confiança, na segurança inabalável de que nada há que nos possa impedir, e em uma conduta que corresponde a essa convicção. A expressão confiadamente sugere o pensamento de nos achegarmos ao trono de Deus sem temor, sem dúvidas, com nenhum outro sentimento senão aquele da liberdade como a que uma criança experimenta ao falar com seu pai.
Essa ousadia é o que o sangue de Cristo, em seu valor infinito, assegurou para nós, e o que seu sacerdócio celestial opera e mantém em nós. Essa ousadia é o resultado natural e necessário do olhar atento de adoração e de fé colocado sobre nosso grande Sumo Sacerdote sobre o trono. Essa ousadia é o que o Espírito Santo opera em nós como a participação interior no acesso de Cristo à presença de Deus. Essa ousadia é a essência de uma vida cristã saudável. Se há algo que o cristão deve cuidar e ter como objetivo é manter ininterrupta e livre de qualquer impedimento a convicção e a prática viva de achegar-se a Deus com ousadia.
Aproximemo-nos, portanto, com ousadia. Jesus, o Filho de Deus, é nosso Sumo Sacerdote. Nossa ousadia para entrar na presença de Deus não é um estado que produzimos em nós mesmos por meio de meditação ou esforço. Não! O Sumo Sacerdote vivo e amoroso, que é capaz de compadecer-se de nós e concede-nos graça para socorro em ocasião oportuna, ele mesmo sopra e opera essa ousadia na alma que deseja perder-se nele. Nossa ousadia consiste em encontrar e sentir Jesus em nosso coração pela fé. Como o Filho, cuja casa somos nós, ele habitará em nosso interior e, por meio do obrar de seu Espírito, ele mesmo será nossa ousadia e nosso acesso ao Pai. "Acheguemo-nos, portanto, com ousadia".
1. Tome posse do pensamento de que o ensinamento de toda a epistola está centralizado nisto: seremos participantes de Cristo e de tudo o que ele é se o tivermos como nosso Sumo Sacerdote para que possamos, com perfeita ousadia, entrar com a mais inabalável confiança e habitar e desfrutar da presença do Pai. É no coração que participamos e temos Cristo. É Cristo, que habita em nosso coração, que tornará nossa ousadia perfeita.
2. Exercite essa ousadia toda vez que você orar. Permita que a medida do mérito de Jesus, que a medida do poder de Jesus para operar em você e levá-lo até Deus, seja a medida de sua ousadia.
3. Que ternura de consciência, que cuidado, que ciúme, que humildade essa ousadia irá operar se tão simplesmente abrirmos mão de tudo o que o nosso coração nos condena e que nos impede de sermos livres diante de Deus. Então esta será verdadeiramente a nossa experiência: Tão próximo, tão verdadeiramente próximo, Mais próximo de Deus me é impossível estar.
(Por Andrew Murray - fragmento de "The Holiest of All: An Exposition of the Epistle to the Hebrews": em domínio público - tradução livre)
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