"Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu." (Hebreus 5:7-8)
Já vimos com que persistência o autor da Epístola aos Hebreus procura imprimir sobre nós a profunda realidade da humanidade de Cristo - o fato de ter sido feito um dentre seus irmãos, de ter participado de carne e sangue como nós, de ter sido tentado em todas as coisas como nós. Nos versículos iniciais do capítulo 5, o escritor mais uma vez coloca diante de nossos olhos o verdadeiro Sumo Sacerdote - ele mesmo rodeado de fraquezas. Agora, mais uma vez, o escritor
volta a esse assunto. No versículo 6, ele já citou a promessa relacionada à ordem de Melquisedeque como o texto a respeito do qual ele desenvolverá seu ensinamento. Todavia, ele sente-se constrangido a interromper sua exposição e, antes de repetir a citação no versículo 11, desvenda mais plenamente o significado da bendita humilhação do Filho de Deus. Ele leva-nos em espírito até o Getsêmani e fala do surpreendente mistério da agonia que Jesus ali experimentou como sendo o último estágio da preparação e aperfeiçoamento do nosso Sumo Sacerdote para a obra que veio realizar. Entremos nesse santo lugar com o coração prostrado, conscientes de nossa ignorância, mas sedentos para conhecer mais a respeito do grande mistério da piedade, o fato do Filho de Deus ter-se tornado carne por nós.
"Nos dias de sua carne". A palavra "carne" aponta para a natureza humana na fraqueza, que é a marca do estado caído.
Quando, naquela escura noite, Jesus disse a seus discípulos: "Vigiai e orai, o espírito está pronto, mas a carne é fraca", ele falou de sua própria experiência. Ele sentiu que não era suficiente ter um propósito correto, mas, a menos que a fraqueza da carne fosse superada, ou melhor, vencida, por
meio do poder recebido do alto, aquela fraqueza entraria muito facilmente em tentação e se tornaria pecado. Os dias da sua carne, rodeado de fraquezas, foram para Jesus uma terrível realidade. Foi com a finalidade de não sucumbir a essa fraqueza que ele vigiou e orou.
"Ele, Jesus, nos dias de sua carne, tendo oferecido com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade", tendo recebido o poder para render sua vontade e aceitar completamente a vontade do Pai, e a renovada segurança de que seria salvo e retirado da morte, "embora sendo Filho" - essa expressão implica que ninguém teria esperado o que será agora dito a respeito do Filho de Deus- "aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu". O Getsêmani foi a escola de treinamento onde o nosso Sumo Sacerdote, tendo sido feito
semelhante a nós em todas as coisas, aprendeu sua última e mais difícil lição de obediência por meio daquilo que sofreu.
"Embora sendo filho". Sendo o Filho de Deus, vindo do céu, alguém poderia dizer que seria impossível imaginar que Jesus teria de aprender a obediência. Mas o esvaziamento de sua vida em glória foi tão real, e sua participação de todas as condições e semelhança de nossa natureza foi tão completa que ele, de fato, precisou aprender a obediência. Isso é verdadeiro a respeito da própria essência da vida de uma criatura racional; é a essência da vida do homem. A vida e vontade que o homem recebeu de Deus não podem ser desenvolvidas senão exercendo um poder de autodeterminação, senão por uma entrega voluntária para Deus de tudo o que ele pede, ainda que isso pareça um sacrifício. A vida humana somente pode alcançar sua perfeição de acordo com a lei de crescimento, provações e desenvolvimento, vencendo aquilo que é contrário à vontade de Deus e assimilando o que essa vontade revela.
Está escrito a respeito de Jesus: "Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria". O que é verdadeiro a respeito da infância do Senhor é igualmente verdadeiro a respeito de sua vida madura. Em cada estágio de vida, ele teve de enfrentar a tentação e vencê-la. E, de cada vitória, ele saiu com sua vontade fortalecida. E seu poder sobre a fraqueza da carne e o perigo de render-se ao desejo da carne pelas coisas terrenas ou o temor da carne frente aos males mundanos, aumentava. No Getsêmani, sua provação e sua obediência foram consumados.
"Ele aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu".
Sofrimento não é natural, é fruto do pecado. Deus nos criou para a alegria. Ele criou-nos não somente com a capacidade para a felicidade, mas também com o poder da felicidade, de forma que sempre que respiramos e nos movemos deveria ser prazeroso. É natural para nós temer e fugir do sofrimento, e o era igualmente para o Filho de Deus. Não há nada pecaminoso nesse desejo, mas se torna pecaminoso quando Deus deseja que nos submetamos e soframos e nos recusamos fazê-lo.
A tentação e o poder das trevas no Getsêmani foi que Jesus recusasse beber do cálice. Em suas orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas, Jesus manteve sua submissão à vontade de Deus. Em meio a lutas e suor de sangue, ele tornou-se obediente até a morte, e morte de cruz. O sofrimento mais profundo lhe ensinou a mais elevada lição de obediência: ao render sua vontade e vida, a obediência de Jesus tornou-se completa, e ele mesmo foi aperfeiçoado para sempre.
Esse é o nosso Sumo Sacerdote. Ele conhece a fraqueza da carne. Ele sabe o quanto custa vencê-la e quão incapazes somos de fazê-lo. Ele vive no céu, capaz de socorrer-nos; compadecendo-se de nossas fraquezas; capaz de condoer-se dos ignorantes e dos que erram; um Sumo Sacerdote no trono, para que possamos achegar-nos ousada e confiadamente e encontrarmos graça para ocasião oportuna. Ele vive no céu e em nosso coração para transmitir-nos seu próprio espírito de obediência, a fim de que seu sacerdócio possa levar-nos a desfrutar plenamente de tudo o que ele possui e é.
1. "Foi ouvido por causa de sua piedade". Como devo então orar em humilde e santa reverência, para que possa orar no espírito de Jesus e seja também ouvido por causa de sua piedade. Esse foi o espírito da oração e obediência de Jesus.
2. "Aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu". Aprenda a olhar e receber todo sofrimento como uma mensagem de Deus para ensinar-lhe obediência.
3. "Ele aprendeu a obediência". Esse foi o caminho no qual Cristo foi treinado para exercer seu sacerdócio. Esse é o espírito e o poder que o prepararam para o trono de glória; o único espírito
e poder que podem levar-nos até lá; o espírito e o poder que nosso grande sumo sacerdote pode conceder-nos. Obediência é a própria essência da salvação. Se olharmos para Cristo sendo pessoalmente aperfeiçoado ou para o mérito que concedeu à sua morte o valor e poder salvífico, ou para a obra realizada em nós, veremos que obediência, entrar na vontade de Deus, é a essência da salvação.
4. "Ele aprendeu obediência". Jesus foi a personalização da obediência, a encarnação da obediência. O que tenho de Jesus em mim é diretamente proporcional ao espírito de obediência que possuo.
(Por Andrew Murray - fragmento da exposição da epístola aos hebreus - The Holiest of All: An Exposition of the Epistle to the Hebrews: em domínio público)
Nenhum comentário:
Postar um comentário