quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O Senhor confirmará o Seu povo

  *A sua congregação será confirmada diante de Mim.* (Jr 30.20)


Deus não apenas reúne um povo; Ele o confirma diante de Si. A promessa feita por meio de Jeremias revela um Deus que estabelece, sustenta e legitima a Sua congregação. 

Não se trata de uma reunião circunstancial, mas de um ajuntamento que existe porque foi chamado, aprovado e firmado pelo próprio Senhor. 

A segurança da congregação não está em sua força numérica, organização ou tradição, mas no olhar de Deus que a reconhece como Sua.


Paulo, em Efésios, aprofunda essa verdade ao afirmar que somos *edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo Jesus Cristo a principal pedra da esquina*. O fundamento da Igreja não é uma ideia, nem um movimento humano, mas uma Pessoa viva. Cristo é a pedra angular — aquela que sustenta, alinha e dá sentido a toda a construção. Fora dEle, tudo se desalinha; nEle, tudo encontra coesão e propósito.


As leituras dos Evangelhos nos conduzem ao batismo de Jesus. Quando o Espírito desce sobre Ele e a voz do Pai declara: *Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo*, temos uma revelação solene e pública. 

O Pai confirma o Filho, o Espírito O unge, e o céu se abre. Esse momento não apenas inaugura o ministério de Cristo, mas estabelece de forma incontestável quem Ele é. A Igreja que está edificada sobre Cristo está edificada sobre Aquele que foi aprovado pelo céu.

Assim, a confirmação da congregação diante de Deus está diretamente ligada à fidelidade ao seu Fundamento. 

Quando permanecemos firmados em Cristo — na verdade revelada pelos apóstolos e profetas —, somos guardados, alinhados e sustentados. A voz que um dia ecoou do céu sobre o Filho continua ecoando sobre o Seu Corpo: *Deus Se agrada de um povo que vive unido ao Seu Filho, dependente do Espírito e submisso à Sua Palavra*.


Que hoje examinemos não apenas se estamos congregando, mas sobre quem estamos edificando. Pois somente aquilo que é construído sobre Cristo permanece confirmado diante de Deus.


O reinado perpétuo do Senhor

 *O Senhor reinará eterna e perpetuamente* (Êxodo 15.18).


Essa declaração nasce do cântico de Moisés após a travessia do mar. O povo havia experimentado, de forma concreta, o poder soberano de Deus: Ele vence inimigos, abre caminhos onde não há saída e manifesta Seu domínio sobre a história.

O reinado do Senhor não é circunstancial nem limitado por tempos ou gerações — Ele reina para sempre.


Séculos depois, o anjo anuncia a Maria que Jesus *reinará eternamente na casa de Jacó, e o Seu reino não terá fim* (Lucas 1.33). 

O que em Êxodo é proclamado como verdade eterna, nos Evangelhos começa a ser revelado em carne e história. 

O Deus que reina eternamente agora se aproxima em Seu Filho, inaugurando um Reino que não se sustenta pela força humana, mas pela obediência, pela justiça e pela graça.


Os textos da leitura bíblica nos conduzem ao início do ministério público de Jesus, no ano 26 d.C., quando Ele se apresenta para ser batizado. Ali, o Rei eterno se coloca na fila dos pecadores. Aquele que não tinha pecado se submete ao batismo de arrependimento, não por necessidade própria, mas *para cumprir toda a justiça* (Mt 3.15). O Reino eterno se manifesta, paradoxalmente, pela humildade e pela obediência perfeita à vontade do Pai.

Esse episódio nos ensina que o governo de Deus não se impõe como os reinos deste mundo. 

O Rei eterno inicia Sua obra descendo às águas, identificando-se conosco e apontando o caminho da obediência. Seu reinado não tem fim, mas começa no coração daqueles que se rendem à Sua vontade.


Diante disso, somos chamados a reconhecer: *se o Senhor reina eternamente, então nossa vida não nos pertence.* 

Viver sob o Seu Reino é aprender, dia após dia, a nos submeter à justiça de Deus, confiando que o Rei que se humilhou por nós é o mesmo que governa todas as coisas com fidelidade e amor.


Louvai ao Senhor

 *Os que congregou das terras do oriente e do ocidente, do norte e do sul: louvem ao Senhor pela sua bondade* (Sl 107.3,8).


O Salmo 107 nos apresenta um Deus que ajunta. Ele busca os dispersos, os cansados da caminhada, os que se perderam em diferentes direções da vida. Do oriente ao ocidente, do norte ao sul, o Senhor chama e reúne um povo para si. 

A resposta adequada a essa obra graciosa não é o silêncio, mas o louvor — louvor pela bondade e pelas maravilhas que Ele realiza em favor dos filhos dos homens.


Paulo, em Efésios 2, nos lembra de onde fomos tirados. Estávamos sem Cristo, sem esperança e sem Deus no mundo. Longe das promessas, alheios à vida de Deus. Não era apenas distância geográfica, mas espiritual. Contudo, o apóstolo anuncia a virada gloriosa do evangelho: *Mas agora, em Cristo Jesus…*. Essas palavras marcam a intervenção soberana da graça. 

Pelo sangue de Cristo, os que estavam longe foram aproximados. O que estava separado foi reconciliado; o que estava disperso foi reunido.


A leitura de Lucas 3 nos conduz ao ministério de João Batista, um homem levantado por Deus para preparar o caminho do Senhor. Sua mensagem era clara: arrependimento, mudança de mente e de direção. João chama o povo a abandonar uma fé meramente externa e a produzir frutos dignos de arrependimento. Ele aponta para Aquele que viria depois, mais poderoso, que batizaria com o Espírito Santo e com fogo. Em outras palavras, João prepara corações para o encontro com Cristo — o único que realmente pode nos trazer para perto de Deus.

Esses textos, juntos, nos mostram que a obra de Deus não é apenas nos salvar individualmente, mas nos reunir como povo, formar uma comunidade redimida, aproximada pela cruz. Fomos alcançados não por mérito, mas por misericórdia; não por obras, mas pelo sangue de Cristo.


Hoje, somos chamados a lembrar de onde viemos, agradecer por onde estamos e viver de modo digno de quem foi trazido para perto. 

Que nossas vidas sejam um louvor contínuo à bondade do Senhor, e que nossos frutos revelem que o caminho do Senhor foi, de fato, preparado em nossos corações.

*Louvem ao Senhor pela sua bondade e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens.*


Sede do Deus vivo

  *A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?*

(Salmo 42.2)


A sede expressa pelo salmista não é por alívio circunstancial, mas pela própria presença do Deus vivo. Trata-se de um anseio que nenhuma experiência terrena consegue saciar. 

Essa pergunta — quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? — revela o coração do verdadeiro adorador: alguém que compreende que a vida só encontra pleno sentido diante do Senhor.


O apóstolo Paulo nos lembra que, enquanto habitamos neste corpo, caminhamos numa tensão santa: vivemos ainda “ausentes do Senhor”, não porque Ele esteja distante, mas porque nossa comunhão plena ainda não foi consumada. 

*Por isso, andamos por fé, e não por vista* (2 Co 5.6-7). 

A fé sustenta essa sede, ensinando-nos a perseverar mesmo quando os olhos não veem e as circunstâncias não confirmam as promessas.


A leitura de Marcos 1.1-8 nos conduz ao início do evangelho, onde João Batista surge como voz que clama no deserto, chamando o povo ao arrependimento e à preparação do caminho do Senhor. 

A verdadeira sede de Deus sempre produz arrependimento, humildade e expectativa. João não aponta para si, mas para o Cristo que vem depois, mais poderoso, aquele que batiza com o Espírito Santo. Toda alma sedenta aprende a diminuir para que Cristo seja exaltado.


Não é sem significado que, em 21 de janeiro de 1525, os anabatistas fundaram sua primeira congregação, desejosos de permanecer firmados unicamente na Palavra de Deus, mesmo sob perseguição. A declaração de Michael Sattler ecoa esse mesmo anseio: permanecer no fundamento das Escrituras, selado pelo sangue de Cristo. A sede de Deus sempre conduziu o povo fiel a uma obediência que custa caro, mas que glorifica ao Senhor.


Que o nosso coração, hoje, continue inquieto enquanto não repousar plenamente na presença de Deus. 

Que andemos por fé, sustentados pela Palavra, preparados em arrependimento e firmes no fundamento eterno, até o dia em que entraremos, enfim, e nos apresentaremos ante a face do Deus vivo.


Fé que vai além do discurso

 Porque, como na multidão dos sonhos há vaidades, assim também nas muitas palavras; mas tu teme a Deus

(Eclesiastes 5.7)


Vivemos cercados por palavras. Muitas vozes, muitos discursos, muitas interpretações. A advertência do sábio é clara: *a abundância de palavras facilmente se torna vaidade*. 

O Senhor nos chama a algo mais profundo — ao temor de Deus, que _silencia o coração, ordena os pensamentos e nos livra da superficialidade espiritual._


O apóstolo Pedro nos lembra que a nossa fé não se sustenta em narrativas bem elaboradas ou em experiências fabricadas:

*Porque não vos fizemos saber o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas astuciosamente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade*

(2 Pedro 1.16)

A verdade do evangelho não é construída pela imaginação humana; ela é revelada por Deus. Cristo foi manifestado na história, visto em Sua glória, e Sua Palavra permanece firme. 

Onde há verdade revelada, não há espaço para vaidade espiritual.


Em Mateus 3.1–12, João Batista aparece no deserto como voz que clama, chamando o povo ao arrependimento. Sua mensagem é simples, direta e urgente: *Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos céus* (Mt 3.2). João confronta a religiosidade vazia e declara que Deus não se agrada apenas de palavras ou de heranças espirituais, mas de frutos dignos de arrependimento (Mt 3.8).

O Senhor continua a nos chamar para uma fé que vai além do discurso. Ele deseja corações quebrantados, vidas transformadas e obediência sincera. 

Que sejamos guardados da vaidade das muitas palavras e conduzidos a um temor verdadeiro, firmados em Cristo e frutificando para a glória de Deus.


Lealdade silenciosa em Cristo

 


Não o notei a princípio. Desci para o desjejum no hotel, tudo estava limpo e a mesa do bufê repleta. A geladeira e o balcão de louças estavam bem abastecidos. Tudo perfeito.


Então eu o vi. Um homem humilde limpava uma mesa, organizava outra. Não chamou atenção para si mesmo, mas quanto mais eu o olhava, mais me surpreendia. Ele trabalhava com agilidade, observando tudo e repondo antes que alguém precisasse de algo. Como veterano neste serviço, notei sua atenção constante aos detalhes. Tudo estava perfeito porque ele trabalhava com afinco, mesmo que poucos o notassem.


Observando esse homem trabalhar meticulosamente, lembrei-me das palavras de Paulo aos tessalonicenses: “Tenham como objetivo uma vida tranquila, ocupando-se com seus próprios assuntos e trabalhando com suas próprias mãos […] Assim, os que são de fora respeitarão seu modo de viver” (1 Tessalonicenses 4:11-12). Paulo entendia como um trabalhador leal poderia ganhar o respeito dos outros ao oferecer um silencioso testemunho de como o evangelho pode infundir dignidade e propósito, até mesmo em serviços aparentemente pequenos.


Não sei se o homem que vi naquele dia era cristão. Mas sou grato por seu silencioso empenho que me lembrou de confiar em Deus para praticar a lealdade discreta e refletir a fidelidade do Senhor.


“Pai, lembra-me de que não há serviços pequenos em Teu reino, quero servir-te fielmente todos os dias”.


Adam R. Holz


Perseverar no Senhor: um chamado diário de vigilância

 


*Nunca tal nos aconteça que nos rebelemos contra o Senhor, ou que hoje deixemos de seguir o Senhor (Js 22.29).*


Essa declaração nasce do temor santo de um povo que sabia que o maior perigo não vinha de fora, mas do coração que se afasta silenciosamente. Rebelar-se contra o Senhor nem sempre é um ato explícito; muitas vezes começa quando deixamos de segui-Lo hoje, adiando a obediência, relaxando a vigilância, permitindo que outras vozes ocupem o lugar da Palavra.


Paulo ecoa esse mesmo princípio ao exortar Timóteo: *Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina” (1 Tm 4.16).* Antes de cuidarmos do que fazemos ou ensinamos, somos chamados a cuidar de quem somos diante de Deus. 

Vida e doutrina caminham juntas. 

Uma fé viva se expressa tanto na verdade que professamos quanto na forma como vivemos. Perseverar nessas coisas não é opcional; é o caminho que preserva nossa própria vida espiritual e edifica aqueles que nos ouvem.

A leitura de Lucas 2:8-20 nos apresenta os pastores — homens simples, atentos ao seu ofício — que foram surpreendidos pela glória de Deus. Eles ouviram a mensagem, creram, foram ao encontro de Cristo e, depois, voltaram glorificando e louvando a Deus. A experiência com o Senhor não os afastou da realidade, mas transformou o modo como viviam nela. Permaneceram fiéis, agora com o coração cheio de reverência, alegria e testemunho.


Esses textos nos chamam à mesma postura: vigilância diária, perseverança fiel e um coração que não se desvia do Senhor. 

Seguir a Cristo não é apenas um marco do passado, mas uma decisão renovada a cada dia. 


Que cuidemos de nós mesmos, da verdade que guardamos, e que, como os pastores, saiamos do encontro com Jesus dispostos a glorificar a Deus em tudo o que fazemos.

Que hoje — e sempre — não deixemos de seguir o Senhor.


Cristo é o Horizonte de Deus

 

“E nos mandou pregar ao povo e testificar que Ele é Quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos” (Atos 10:42).


“Porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um Varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-O dentre os mortos” (Atos 17:31).


Temos uma palavra oculta no Livro de Atos, uma vez que ela não foi traduzida literalmente na nossa versão. Essa palavra foi repetida nas duas passagens acima, e foi traduzida como “constituído” e “destinou”. Na língua original, que é o Grego, a palavra é ‘horizo’, de onde é derivada a palavra “horizonte” em nosso idioma. Portanto, temos uma dupla afirmação oculta por trás das palavras “constituído” ou “destinou”: que Deus tornou Seu Filho, Jesus Cristo, no Horizonte de todos os Seus interesses e atividades. 


[O horizonte (do grego ὁρίζω) é a linha aparente ao longo da qual, em lugares abertos e planos, observamos que o céu parece tocar a terra ou o mar. No sentido figurado se relaciona ao espaço que a vista abrange: um vasto horizonte. Também pode ser traduzido como a extensão de uma ação, atividade: por exemplo, o horizonte dos conhecimentos humanos. Também pode ser usado figuradamente como perspectiva do futuro. Portanto, podemos traduzir horizonte como: perspectiva, âmbito, panorama].


Cristo é o Horizonte de Deus, tudo é balizado por Ele. Todos sabemos o que horizonte representa: o ponto mais distante de visão, a esfera mais afastada e extensa das coisas. Onde quer que formos nesse mundo, em qualquer que seja o lugar, ainda seremos confrontados com o horizonte, que limita e inclui tudo dentro em si. 


Aqui, em uma linguagem muito precisa, aprendemos que assim como o horizonte equivale ao limite e esfera máximos para a terra, Deus considera Seu Filho dentro de Seus conselhos eternos. Cristo é a esfera plena de Deus, o limite máximo e o conteúdo completo de tudo que existe. 


Apesar da palavra grega ‘horizo’ só aparecer duas vezes no Novo Testamento, seu sentido pode ser encontrado em tudo mais. Um fragmento muito impressionante que indica isso está na carta aos Colossenses, no capítulo 1, nos versos 16 e 17, “pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste” [grifo nosso]. Nessa citação do apóstolo Paulo, temos Cristo como o horizonte, a área, o escopo, a esfera, e a plenitude de todas as coisas. Este é Cristo.


O Filho de Deus, o Senhor Jesus, foi estabelecido por Deus, o Pai, como a norma, o representante de tudo que eventualmente será universal. No futuro, o universo será uma expressão do Filho de Deus. Tudo, dentro do horizonte universal, tomará o Seu caráter. Ele, portanto, deve ser muito grandioso; pois será um Cristo universal, além de Quem nada mais haverá, porque Ele é o horizonte!


Sabemos que se pararmos em um determinado ponto e olharmos para o horizonte, se avançarmos em sua direção, não importa quão longe dele estivermos e quanto tempo isso pode levar, podem ser mil quilômetros, ainda assim o horizonte estará adiante de nós, e à mesma distância. Não conseguiremos ultrapassar o horizonte nessa terra, nesse mundo, nessa criação.


Portanto, quando Deus finalmente obtiver as coisas como Ele idealizou, toda a esfera será uma expressão e manifestação do Seu filho. Ele estará em toda as coisas, para nelas ter a proeminência. Ele deverá encher todas as coisas e todas as coisas deverão ser agregadas à Ele. Ele é a soma daquilo que Deus deseja. Quão grande é Aquele que chamamos ‘nosso Senhor Jesus’!


T. Austin-Sparks (1888-1971)


Cultivando um relacionamento com Deus

 

“A minha alma apega-se a Ti, a Tua destra me ampara” (Salmo 63:8).


Andamos quase inteiramente esquecidos de que Deus é uma pessoa, e que, por isso, devemos cultivar nossa comunhão com Ele como cultivamos nosso companheirismo com qualquer outra pessoa. É parte inerente de nossa personalidade conhecer outras personalidades, mas ninguém pode chegar a um conhecimento pleno de outra através de apenas um encontro. Somente após uma prolongada e afetuosa convivência é que dois seres podem avaliar mutuamente sua capacidade total.


Deus é uma pessoa, e nas profundezas de Sua poderosa natureza Ele pensa, deseja, tem gozo, sente, ama, quer e sofre, como qualquer outra pessoa. Em Seu relacionamento conosco, Ele se mantém fiel a esse padrão de comportamento da personalidade. Ele se comunica conosco por meio de nossa mente, vontade e emoções. O cerne da mensagem do Novo Testamento é a comunhão entre Deus e a alma redimida, manifestada em um livre e constante intercâmbio de amor e pensamento.


Esse intercâmbio entre Deus e a alma, pode ser contatado pela percepção consciente do crente. É uma experiência pessoal, isto é, não vem através da igreja, como Corpo, mas precisa ser vivida por cada membro. Depois, em consequência dele, todo o Corpo será abençoado.


Nós somos em miniatura, (excetuando nossos pecados), aquilo que Deus é de forma infinita. Tendo sido feitos à Sua imagem, temos dentro de nós a capacidade de conhecê-Lo. Enquanto em pecado, falta-nos somente o poder. Mas, a partir do momento em que o Espírito nos vivifica, dando-nos uma vida regenerada, todo o nosso ser passa a gozar de afinidade com Deus, mostrando-se exultante e grato. Isso é este nascer do Espírito, sem o qual não poderemos ver o reino de Deus. Mas esse não é o fim, mas apenas o começo, pois é a partir daí que nosso coração inicia o glorioso caminho da busca que consiste em penetrar nas infinitas riquezas de Deus.


Posso dizer que começamos nesse ponto, mas digo também que homem nenhum já chegou ao final dessa exploração, pois os mistério da Trindade são tão grandiosos e insondáveis que não tem limite nem fim.



A. W. Tozer (1897-1963)


Humildes de espírito



“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5:3).


Devemos sempre pedir por mais do amor de Cristo; dificilmente estaremos a salvo das artimanhas em nosso caminho, se não formos humildes em espírito.


Cristo era o único que podia, sem luta, contentar-se em ser “verme e não homem” (Sl 22:6).


A pessoa que se engrandece, se degrada aos olhos de Deus na mesma medida que se exalta aos seus próprios olhos.


Afundamos no nada à medida que crescemos em Cristo. Crescer na pobreza de espírito é realmente crescer na graça, pois: “Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15:5).


Se estivermos assentados aos pés de Jesus, toda jactância carnal será banida, teremos Sua mente de sabedoria em todas as coisas e não poderemos nos comportar indevidamente.


Nenhum descanso teremos para a planta dos nossos pés, exceto em Cristo. Sempre que um pobre necessitado O busca, Ele o trata como Noé fez com aquela pomba. Noé estendeu a mão e a abrigou dentro da arca.


Se nos censuramos a nós mesmos, Cristo nos justifica. Se formos mudos em nossa própria defesa, Ele abre a boca para pleitear nossa causa, e restaura nossos corações feridos.


Se eu estiver satisfeito em não ser nada, não posso me ofender; e quando for realmente humilde e me reconhecer como um verme, não irei reclamar se for pisoteado.


O orgulho alimenta a lembrança das injúrias, a humildade as esquece e as perdoa.


Ló nunca se aproximou de Deus o suficiente para conhecer seu próprio coração; foi Abraão, e não Ló, que admitiu: Sou apenas “pó e cinza” (Gn 18:27).


Robert Cleaver Chapman (1803-1902)


A biografia de Cristo, pelo Espírito Santo

 


“Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus 3:17).


“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29).


“O Espírito Santo está escrevendo uma biografia espiritual de Jesus Cristo, gravada na vida e experiência espiritual dos crentes. Tudo que foi verdadeiro na vida do Senhor Jesus, com exceção da Sua deidade, será escrito na nossa experiência espiritual” (T. Austin-Sparks).


A vida de cada crente deve refletir a história de vida do Senhor Jesus. O Espírito Santo intenciona escrever essa vida de Jesus nos crente para que todos ao nosso redor possam ser capazes de lê-la.


Essa biografia tem início quando nascemos de novo, o que tem suas raízes na eternidade, assim como foi o início de Cristo. Nascer de novo equivale a receber vida eterna, que é simplesmente a presença de Deus, e é essa vida eterna que governa tudo na vida individual e corporativa do crente. Isso é ilustrado pela árvore da vida, que está presente no início e no final do relato Bíblico, e representa Jesus como nossa vida.


Os primeiros anos de Jesus foram divididos em três seções: primeira infância, infância e idade adulta. Cada uma dessas seções se repetirá na experiência de cada crente, sendo ilustrada por diferentes seções da Bíblia, e cada uma delas resultará em vida. 


A primeira infância, como retratada por Abel, Enoque e Noé, representa o início da vida baseada na justificação pela fé, ou adotando um termo mais simples, um posicionamento correto diante de Deus. A infância é ilustrada de Abraão a Moisés, e representa a fase em que somos aperfeiçoados pela obra do Espírito Santo, assim como aconteceu com Jesus em sua vida humana. A idade adulta é ilustrada pelos profetas do Antigo Testamento, e é representada pelo ministério de Jesus depois do Seu batismo, destacando as dores de parto e intenso conflito que envolvem o desenvolvimento da plenitude da vida Divina.


Maria, que foi uma serva de Deus usada para trazer Cristo ao mundo, ilustra o próximo capítulo dessa biografia. Ela é a figura de uma verdadeira serva de Deus: “Serviço é trazer Deus para onde estamos”. Em Maria vemos a operação da cruz em ação por meio do seu penoso sofrimento e a operação do Espírito Santo que a capacitou para servir e dar à luz ao Senhor Jesus. Assim como o Filho não permaneceu em Seu lugar na eternidade, mas se tornou num homem humilde, Maria desceu ao ponto mais baixo para aceitar os arranjos de Deus, quando concebeu Jesus fora do casamento. Esse tão elevado sofrimento foi parte do seu serviço a Deus. O resultado foi que Cristo foi trazido ao mundo e foi conduzido para mais perto do Seu lugar de direito. Essa história se repetirá em nós.


O próximo capítulo dessa biografia envolve o batismo, a unção e a tentação de Jesus. O batismo de Jesus representa o julgamento e morte de toda a raça humana, que foi desacreditada diante de Deus. Quando Jesus saiu das águas, Ele foi acreditado por Deus e permaneceu debaixo de um céu aberto. Jesus só foi ungido por Deus depois do Seu batismo.


“Quando Jesus foi ungido no Jordão, aquele foi o início de Sua vocação, e essa vocação foi estabelecida em uma comunhão plena com Seu Pai”. 


A seguir, Jesus foi tentado. Tentação tem sua origem nas duas árvores no Jardim do Éden. “Uma árvore, a árvore da vida, era o símbolo da vida divina por meio da qual Deus desejava que o homem vivesse, e a outra árvore, a árvore do conhecimento do bem e do mal, era o símbolo da auto-suficiência do homem”.  Essa foi a base da tentação de Jesus. O diabo desejava que o Senhor deixasse de colocar Sua confiança em Deus, mas se apoiasse em Sua própria força. Na tentação relacionada ao pão, Jesus foi tentado em Sua confiança na vida o Pai. Na tentação relacionada ao templo, Jesus foi provado sobre Sua confiança nos métodos humanos (nesse caso, os milagres) para cumprir Sua vocação. Na tentação relacionada aos reinos terrenos, Jesus foi claramente tentado a fazer um acordo com o príncipe desse mundo. Essas tentações, que são parte integrante da história de Jesus, são repetidas em nossas vidas enquanto nos empenhamos em nosso serviço de trazer Deus a esse mundo. 


Essa seria a biografia de Cristo, escrita pelo Espírito Santo. Debaixo da direção do Espírito Santo, a vida de cada crente irá se tornar na história de Cristo reescrita para que todos possam contemplar.


Rex G. Beck


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O que é vida abundante?

 


O que significa possuir a terra? É muito mais do que conquistá-la. Uma coisa é derrubar os muros de Jericó; outra coisa é entrar e possuir a cidade.


Uma coisa é lutar uma grande e decisiva batalha contra a tentação; outra é prosseguir rumo à perfeição e acrescentar à nossa fé, conhecimento, domínio próprio, piedade, fraternidade, amor e todos os frutos do Espírito [conf. 2Pe 1:5-7].


Cada palavra desse texto é extremamente sugestiva. O primeiro pensamento sugerido       é, apropriar-se como nossa a herança. Uma coisa é entender as promessas, desejar a experiência, e se propor a obedecer aos mandamentos. Outra é colocar seu próprio nome em tudo, e reivindicar para si as coisas prometidas e comandadas. O pronome pessoal, meu, faz toda a diferença no mundo.


O segundo pensamento sugerido pela expressão é a experiência real daquilo que reivindicamos, entrar nela e vivê-la.


O imigrante pode ir ao cartório de terras e colocar seu nome e solicitação de uma concessão gratuita na Reserva Ocidental, mas isso não é suficiente. Ela não pode se tornar sua propriedade até que ele se estabeleça nela, construindo uma casa e vivendo ali, e começando a cultivar sua propriedade. Então ele se torna no verdadeiro possuidor, e seu título [ou escritura] não pode ser alienado.


É isso que Deus requer que façamos. Primeiro, pela fé, devemos nos apropriar da herança prometida, e então, pela experiência real, nos estabelecer na promessa e levá-la para nossas vidas.


Há algo muito real nessa ideia de nos apropriarmos de uma experiência cristã distinta.


A maioria das pessoas está tentando viver a vida de outra pessoa. Mas Deus tem uma herança para cada um de nós, única, distinta e pessoal. Ele quer que nos apropriemos dela, a entendamos, captemos sua visão, a reivindiquemos para nós mesmos e tomemos posse dela em nossa vida real.


A vida da grande maioria das pessoas é formada de retalhos de outras pessoas. Elas pegam um trapo de uma, um pedaço de outra, e costuram da melhor forma possível, até que se tornem como uma colcha de retalhos, e não é de se admirar que às vezes sejam essa “colcha de retalhos”.


Deus quer que você seja você mesmo, nEle. Ele tem um padrão para você que Ele não tem para mais ninguém, e se você permitir, Ele tecerá sua vida, e a desenvolverá em um design único e belo.


Não é este o significado deste versículo notável e frequentemente mal aplicado: “Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade?” [Fp 2:12,13].


A.B. Simpson (1843-1919)


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

NÃO AGORA, MAS DEPOIS




“Quem há entre vós que ouça isto? Que atenda e ouça o que há de ser depois?” (Isaías 42:23)


Desconsiderando o contexto das palavras do profeta, pergunto se realmente acreditamos que existe um porvir. Será que acreditamos que o porvir é um tempo maior que o agora e que o depois é mais elevado do que o presente? Será que cremos que ainda existirão outras eras e que nossa existência nessa terra é apenas um mero fragmento daquilo que ainda será, independente de sua duração? Podemos afirmar que acreditamos que nosso serviço nas eras que virão será muito mais importante do que o realizado nesta era?


Não desejo minimizar a importância desta vida, pois devemos aproveitar toda a oportunidade diante de nós, remindo o tempo que ainda nos resta. Ainda assim, devemos ter consciência que esta existência é só um breve espaço de tempo dentro daquilo que se manifestará. Algumas vezes, parece que partimos exatamente quando estamos chegando à uma maior condição de utilidade para os demais. Quando aprendemos algo de real valor para cooperar com os outros, somos chamados para partir. Que problema! Que enigma é essa vida diante de nós!


“O que há de ser depois”. Essa era a perspectiva dos apóstolos, como vemos pelas suas palavras: “esforçar-me-ei, diligentemente, por fazer que… mesmo depois da minha partida…” (2Pe 1:15). Esse é o teste supremo: medimos as coisas apenas dentro desse período da nossa breve existência ou estaremos contentes em aguardar pelos valores da eternidade?


Alguns acreditaram que valeria a pena partir para uma terra estranha por Cristo, vivendo ali por apenas um ou dois meses, e então entregar a vida ali. Aquelas pessoas estavam absolutamente corretas! De fato aquilo valeu a pena, se era da vontade de Deus para eles. Se eles não pensassem assim, não teriam sequer o direito de ir. Os valores de Deus são sempre eternos.


Vamos sempre vislumbrar “o que há de ser depois” como verdadeira motivação para nossa vida. O fruto de nossas vidas nunca será visto plenamente hoje. Só vislumbraremos uma pequena parcela do seu sentido em nossos dias, pois seu valor completo só será visto depois. Precisamos viver não apenas focados no agora, pois, apesar de vivermos intensamente nossos dias, ainda assim não seremos capazes de fazer ou ser muito. Poderemos até chegar a duvidar se o resultado que obtivemos aqui valeu todo o esforço. No entanto, nosso empenho não será avaliado apenas nesta vida, pois o Senhor avalia as coisas à luz dos “séculos dos séculos”.


T. Austin-Sparks (1888-1971)


domingo, 11 de janeiro de 2026

O Livro dos Livros

 


Excelência da lei divina


“A lei do Senhor é perfeita

e restaura a alma;

o testemunho do Senhor é fiel

e dá sabedoria aos símplices.

Os preceitos do Senhor são retos

e alegram o coração;

o mandamento do Senhor é puro

e ilumina os olhos.”

(Salmos 19:7-8)


A palavra de Deus é um presente dado pelo Pai a todos os Seus filhos. O Senhor disse que partiria, mas enviaria o Consolador, e Ele iria nos ensinar todas as coisas, nos fazendo lembrar de tudo o que Ele havia dito (Jo 14:26). A “Unção”, conforme João denominou, é Quem “nos ensina a respeito de todas as coisas” (1 Jo 2:27). A Palavra de Deus deve ser interpretada por Ele mesmo, o seu Autor. Dificilmente teremos um tempo proveitoso com o livro sagrado, se não for em temor e dependência do Senhor para nos conduzir e orientar.


Nesse sentido, nenhum livro pode ser tão rico e inesgotável como a própria Bíblia. Tantas pessoas lêem esse livro e são sustentadas, edificadas, consoladas, admoestadas. Apesar de nada novo ter sido acrescentado, o Pai pode aumentar nossa capacidade de apreciá-la, absorver detalhes escondidos no livro e tocar Nele mesmo. Quantos homens santos já relataram isso e já discorreram sobre riquezas sem fim colhidas nesse livro tão maravilhoso?


Então, em primeiro lugar, nosso livro favorito é a própria Palavra de Deus. Esse livro é a base para tudo, e lê-la diariamente, orar suas palavras, estudar suas porções, meditar e buscar entendimento do alto é primordial.


“Bem-aventurados os irrepreensíveis no seu caminho, que andam na lei do Senhor.

Bem-aventurados os que guardam as suas prescrições e o buscam de todo o coração; não praticam iniquidade

e andam nos seus caminhos.

Tu ordenaste os teus mandamentos,

para que os cumpramos à risca.”

(Salmos 119:1-4 ARA)


Uma cena de encerramento

 


*Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte dos seus santos.*

(Salmos 116:15)


“Para nós, a morte parece ser uma tragédia; para Deus, é mais do que a promoção de um dos Seus servos para a glória eterna.”(R.Shedd)


O médico estava fazendo sua visita médica habitual. A doença havia sido longa e muitas visitas haviam sido feitas, mas nessa última visita a mudança era aparente. Virando-se para uma irmã que estava no quarto, ele disse calmamente: “Ela está morrendo”. Ele era amigo da família e também seu médico e simpatizava com os amigos enlutados. Mas havia outra na sala pronta para confortar todos eles. Quando as palavras “Ela está morrendo” chegaram ao seu ouvido, elas não transmitiram alarme à sua alma; tudo era paz e, fazendo um pequeno esforço para olhar para o amigo, ela respondeu calmamente: - “Não estou morrendo, doutor – estou indo viver. Não, não estou morrendo; isso é viver - eu estou indo morar com Jesus”. E com grande presença e compostura da mente, ela expressou sua gratidão ao médico por todas as suas atenções e bondade e assegurou-lhe que sentia que ele havia feito tudo o que o homem podia fazer, e se despedindo ela orou por ele e para que sua família fossem abençoados: “Que Deus te abençoe, doutor, e que Ele abençoe sua família”. Essas últimas palavras de sua paciente foram mais do que ele poderia suportar; ele saiu da sala em um estado de emoção mais profunda. Ele voltou no dia seguinte para vê-la dormindo em Jesus e para falar da bênção que ele havia recebido.

 

O trabalho dela estava agora finalizado. Assim como seu Senhor e Mestre, ela saiu de cena com as mãos erguidas em bênção. Ela era Cristã há muitos anos e tinha a calma e sólida realidade de uma mente bem instruída. Naturalmente, foi somente a graça de Deus que a capacitou a prestar tal testemunho pela verdade e por Cristo, mas foi a doce sensação de Sua presença com ela naquele quarto de sofrimento e morte que preencheu toda a sua alma com tal paz e descanso. Ele estava com ela e isso era suficiente. A força de Seu braço, o resplendor de Seu semblante, assim como o amor de Seu coração, eram todos dela mesma. Ela está agora ausente do corpo, mas presente com o Senhor. Ela se uniu àquela multidão de milhares de pessoas acima, calmamente para esperar com elas e com Ele, o dia de Sua glória vindoura. Nós nos encontraremos pela manhã, aquela manhã de gozo eterno e sem nuvens. Até lá, que possamos cessar de nós mesmos, alegrar-nos em Cristo Jesus e buscar a bênção dos outros.*


*(Extrato da Revista “ Bible Truth Publishers” Things New and Old, 16:296 - Autor Anônimo)


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