sábado, 23 de setembro de 2023

Participantes da Cruz: A Morte de Cristo É a nossa Morte

(continuação)


O pleno significado da nossa identificação com o Salvador na Sua morte não pode ser recebido de imediato.

Precisamos ficar no lugar chamado Calvário para que o Espírito Santo possa nos revelar as profundas implicações da nossa participação na cruz de Cristo.

O homem natural não pode receber essas coisas. Elas são discernidas espiritualmente. Mas se estivermos dispostos e ansiosos para experimentar as coisas mais profundas de Deus, o Espírito não falhará em fazer a Sua obra. A Verdade da qual Jesus falou que poderia libertar alguém será revelada. Mas não apenas veremos e entenderemos. Muito mais que isso, essas verdades serão entrelaçadas na estrutura do nosso próprio ser.

Nenhuma verdade bíblica que tem a ver com a nossa vida cristã realmente pode ser considerada nossa até que ela tenha operado dentro de nós e tenha nos conduzido para uma harmonia com ela. Como cristãos, não podemos falar de possuir a verdade à

parte d'Ele, que é a Verdade.

Os cristãos maduros que experimentaram uma crucificação interior e sabem o que ela significa em relação à morte de Cristo, consideram-se mortos para o pecado e vivos para Deus por meio de Cristo, mesmo com o passar dos anos são levados a descobrir mais profundamente a agudeza da "vida do ego". Alguma nova provação, alguma circunstância que traz com ela o grande questionamento sobre a vontade do Pai ou a vontade própria, repentinamente revela a obra da escondida "vida do ego". Eles podem ter pensado que eram inteiramente do Senhor e que o "velho ego" estava enterrado com Cristo, mas alguma

súbita mudança da situação parece despertar a velha vida e pôr em movimento aquilo que era chamado de "a roda da natureza”. Quando o Espírito lhes revela a obra secreta da “vida do ego" percebem sua necessidade de uma nova e mais profunda apropriação da cruz.

A única saída para eles é por meio de uma participação mais profunda na morte de Cristo. Somente o Rádio do Calvário pode remover as raízes restantes do velho câncer. Elas se elevam, por assim dizer, às mais elevadas alturas da vida espiritual, afundando-os nas profundidades mais agudas da morte. Por mais fundo que possam ter ido, o Calvário ainda tem para eles inimagináveis profundidades da crucificação.

Vamos examinar mais adiante esta questão da identificação.

Tanto uma posição como um Processo

É ao mesmo tempo uma posição definitivamente tomada por um ato de fé, na qual o crente se entrega à posição que Deus lhe designou na morte do Seu Filho, e um processo de

crescimento no qual o crente se apropria segundo a sua necessidade, uma vida cada vez mais profunda de comunhão com a morte do Salvador. Paulo disse que desejava conhecer a Cristo e o poder da Sua ressurreição... sendo feito conforme a Sua morte (Fp 3.10). Tudo está resumido no grande paradoxo do Evangelho: "Aquele que perder a sua vida achá-la-á”.

Não é, com certeza, que haja qualquer anulação da personalidade envolvida. Muito pelo contrário. Paulo não era menos Paulo depois da compreensão da sua unidade com Cristo na morte, expressa naquela assombrosa declaração da Epístola aos Gálatas: "Estou crucificado com Cristo". Ele podia, com infinitamente mais direito, dizer: "... e esse viver que, agora, tenho na carne..." (Gl 2.20). Uma vez que a cruz retira a "vida do eu" para que a alma se torne centrada em Deus, a personalidade, em toda a sua glória e no pleno gozo dos seus poderes, começa a se desenvolver. Somente podemos possuir a nós mesmos quando Deus é supremo em nossa vida.


Se isso não estiver claro, peço que o leitor reserve todo o julgamento quanto à verdade da minha tese e avance comigo no desenvolvimento do assunto, pois confio no Espírito. Ele é o Espírito da Verdade. Nenhuma verdade relacionada à grande obra da redenção, como já foi dito, pode ser sustentada sem Ele. Ele nos revelará o fato da nossa participação na cruz de Cristo e nos dará a coragem para aceitar as consequências. Tudo é Sua obra, e Ele não pode falhar.


Precisamos constantemente ter em mente que a nossa morte em Cristo é uma comunhão potencial. Embora do ponto de vista divino seja algo há muito consumado, histórica e objetivamente concluído (é-nos dito para considerá-lo como algo feito, Romanos 6:11), contudo, do ponto de vista humano, é algo confiado a nós que somente por meio do exercício da fé se torna efetivo, experimental. Assim como a morte substitutiva do Salvador por nós se torna efetiva na extinção dos nossos pecados pelo exercício da fé, assim também a nossa participação na morte de Cristo para a remoção não dos pecados, mas do pecado como um princípio (a velha vida com sua inimizade contra Deus e sua obsessão pelo ego), se torna efetiva pelo exercício da fé. A primeira nós poderíamos chamar de uma participação nos benefícios penais da obra redentora de Cristo, a outra, uma participação em sua força moral de recriação. A nossa vontade é condição suprema no recebimento tanto de uma como da outra, contudo, conforme foi afirmado no capítulo anterior, violentamos o espírito da cruz em qualquer desassociação consciente ou inconsciente das duas. Elas são uma.

Nossa Necessidade Consciente

Quando digo que a nossa vontade é a condição principal, quero dizer que o respeito de Deus pela liberdade do homem é algo tão grande que podemos dizer que Ele não pode quando o homem não quer. Ele só pode operar essas obras poderosas que tão grandemente e tão eternamente afetam o ser humano com a condição do seu consentimento. Operar em qualquer outra condição poderia não ter nenhum significado. No ato da criação, coroando o homem com essa divina prerrogativa, o livre-arbítrio, Deus Se limitou. Movido pelo infinito amor, compartilhou com o homem a Sua própria divindade,(¹)

estabelecendo limites à Sua própria Onipotência ao dotar o homem com o poder de escolha.

Hoje, esses limites pelo lado divino nunca foram e nunca serão violados. Deus procura alcançar o homem, mas nunca o força.

Ele apela de mil maneiras ao que há de melhor nele, mas nunca o coage. Ele suplica a ele, mostra-lhe as consequências abomináveis do pecado (o testemunho da cruz), mas nunca o obriga a voltar para o relacionamento amoroso com Ele.

Portanto devemos escolher. Seremos dominados pelo ego ou por Cristo? Queremos continuar a mimar o ego e crucificar de novo a Cristo ou queremos morrer para a vida do ego (chame-a como você quiser, vida da carne, vida velha, vida carnal - não importa) e ressurgir fora da sepultura para viver no poder da ressurreição de Cristo, completos na vontade de Deus?


Esta é a grande questão que a cruz de Cristo suscita. Para que possamos ser compelidos (de um modo moral, não pela coerção da força) a nos agarrar a esta que é a suprema questão de todos os tempos - sim, a eternidade não tem nenhuma questão maior -, Deus concebeu a sublime lição objetiva do Calvário. E para que possamos decidir corretamente, para que não cometamos nenhum erro em nossa decisão, sim, para que possamos

escolher estar com Deus e irrevogavelmente romper com o ego, Cristo humilhou a Si mesmo dispôs-Se a ser cuspido, a ser injuriado, a ser contado com os criminosos, a ser pendurado em ignominia diante de uma turba zombeteira em um amaldiçoado madeiro. Podia a sabedoria das eras conceber uma forma mais potente uma forma mais irresistível -, uma forma mais segura de obter o consentimento do homem para ser separado do ego?

Se algo mais projetado para engendrar no homem uma aversão ao ego, e um amor por Deus, pudesse ter sido encontrado, podemos estar seguros de que a Sabedoria Eterna não teria falhado em produzi-lo. "Cristo crucificado" - sim, verdadeiramente, é isso - "o poder de Deus e a sabedoria de Deus" (1 Co 1.23-24).


"... foi crucificado com ele [Cristo] o nosso velho homem."

Potencialmente é uma operação concluída. Judicialmente, como crentes estamos mortos em Cristo no sentido ético. Assim o Pai nos julga. Não podemos tampouco acrescentar nem tirar de uma obra divinamente consumada.

Na Cabeça Federativa da nova raça, aqueles que nascem deste Segundo Homem estão crucificados. Se você é alemão ou francês, certos hábitos mentais, certo temperamento da alma são inevitáveis. Se você é cristão, uma vida crucificada é inevitável. A Igreja não nasceu do ventre Eterno até que na cruz aquela vida tivesse sido gerada.


Para esse propósito Jesus veio. Sua morte não foi um mero acidente. Ele foi "morto antes da fundação do mundo" (Ap 13.8).

Sua morte não foi simplesmente a de um mártir. "... porque dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou" (Jo 10.17-18). "Agora, está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me

desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora" (Jo 12.27). Na verdade, Sua morte não foi uma reflexão tardia, mas o incidente de realização indispensável para a geração de uma Igreja crucificada. Um Cristo crucificado para que Ele pudesse ter seguidores crucificados.

Mas, repito, precisamos escolher. Se for para o espírito de Cristo florescer em nós na plenitude do seu esplendor para que alcancemos a medida da estatura do Varão Perfeito, precisamos, por meio de um ato voluntário, nos render àquela que já é potencialmente a nossa posição diante de Deus: a identificação com a cruz de Cristo. Devemos, com base na cruz, e na nossa unidade com Cristo na morte, recusar a "velha vida". "... o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele" (Mt 11.12).

Precisamos não apenas recusar a "velha vida" em um momento sublime de rendição, quando a verdade da nossa união com Cristo explode dentro de nós, mas devemos fazê-lo persistentemente, a cada momento em que a natureza queira se reempossar. Precisamos fazê-lo tão persistentemente e tão habitualmente da mesma maneira que, por assim dizer, taparíamos o nosso nariz para o fedor de um beco imundo onde devemos passar diariamente. Por um lado, você alcança isso definitivamente em uma posição que inteligentemente assume, pois está enxertado no Tronco do Eterno Cristo, cujo "processo intermediário da morte e ressurreição" você compartilha; mas por outro lado tudo é mantido na confiança divina para que você possa, como um agente moral livre, escolher, e escolher novamente, e continuar a escolher.

Qual é o seu desejo? A Vida Divina que flui como um grande rio de vida do Trono e do Cordeiro? Então você precisa recusar a sua própria vida. Ela foi corrompida pelo pecado. Separe-se dela colocando-se na morte de Cristo. Receba a cada momento da vida celestial. Faça isso, e será mais do que vencedor. Faça isso, e não se angustiará mais para desempenhar um papel, procurando imitar a Cristo; você caminhará inteiramente inconsciente, espontaneamente, como Jesus caminhou. Você não poderia se parecer com nada além d'Ele, compartilhando, quando assim o faz, da Sua morte e da Sua ressurreição. Será algo fácil, algo jubiloso, algo encantador - como os jogos infantis.

Agora é natural para você ser cristão, pois foi feito um participante da natureza divina.

A Grande Necessidade da Igreja

Que a Igreja possa ver esta sublime verdade! Ela tem desfrutado de cinquenta por cento da redenção porque não percebeu as implicações da cruz. Ela não tem estado disposta a mor-

rer com o seu Senhor. Ela não "se apropria das suas possessões" porque não aprendeu a se considerar morta para o pecado. Ela ainda está debaixo da escravidão da "carne, do mundo e do diabo" porque não creu no seu Senhor, que repetidas vezes, pelos preceitos e pelos exemplos, e finalmente pela profundeza do Seu autoesvaziamento no Calvário, procurou inculcar o elevado princípio da autorrenúncia. 

Ela não tem acreditado que a vida eterna só pode ser achada por meio de uma completa renúncia da "velha vida". Ela procurou imitar o seu Senhor - na energia da "vida da carne

reproduzir o Seu caminho. Ela não estava disposta a reconhecer sua completa incapacidade nesse sentido e abrir mão da sua própria vida para se tornar participante da vida celestial.

Ela não pode transmitir a vida para um mundo morto porque viola o seu pacto. Aquele pacto que foi feito no Calvário. É um pacto de morte. Cristo mostrou o caminho, Ele nos convidou

para segui-lo. Uma união eterna profunda, um enxerto da alma em Cristo, uma grande fusão de interesses, propósitos, aspirações, de tudo, deve ser consumada. Este é o Evangelho. Mas Deus, em termos muito inconfundíveis, muito eloquentes, muito

elevados, muito provocantes para que todas as eras, todas as raças e todas as gerações não falhem em compreender o significado, tem revelado sobre que base essa união pode ser realizada. É por meio da cruz de Cristo. A "velha vida" deve desaparecer e na pessoa do Filho do Homem ser exterminada. Mas a Igreja não está sujeita ao fogo consumidor do Rádio do Gólgota.

Por essa razão, está impotente neste importante tempo em que uma crise mundial, não apenas econômica, mas moral, está sobre nós.

É uma tolice falar de reavivamento sem uma participação profunda na cruz. Os líderes cristãos se tornaram suspeitos.

Dificilmente um deles ousa falar de reavivamento. E a Igreja faz bem em manter-se a distância de todo evangelismo de charlatões. Todo reavivamento na Igreja que provenha da "vida da carne", isto é, da vida meramente natural, que é ocasionado por uma mera operação da "vida da alma", que falha em cortar a "velha vida" e conduzi-la ao lugar chamado Calvário para execução é falso. Se Deus participasse de tais reavivamentos e tais

reuniões, notáveis pelo seu fogo estranho (dois dos filhos de Arão perderam sua vida por introduzirem fogo estranho nos cerimoniais de oferendas dos israelitas), se, repito, Deus colocasse o selo da Sua aprovação sobre tal fogo falsificado, iria Se constituir um inimigo da cruz. Ele seria antagônico ao Filho. Ele estaria reanimando o que Cristo matou. Saul poderia se recusar a acabar com Agague, mas Samuel não. "... a carne para nada aproveita", "... foi crucificado com ele [Cristo] o nosso velho homem", "E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências." Lemos em Êxodo que o óleo não era aplicado até que o sangue tivesse sido aspergido. O óleo

(o Espírito Santo) depois do sangue (a cruz) (Ex 31.32). Para compartilharmos da vida de Cristo, precisamos participar da cruz de Cristo.


Vida Proveniente da Morte


É interessante observar o quanto essa mesma lição é ensinada no grande Livro da Natureza. Dificilmente há uma página em todo o livro que deixe de enfatizar o fato de que toda vida jorra da morte. Não de uma árvore, não de uma flor, não de um arbusto, não de um fruto, mas do custo da morte de uma semente.

Outro dia um amigo me levou para ver a sua plantação de algodão. Fiquei muito contente por ele ter insistido que o seguisse entre as fileiras de pés, pois Deus me falou por meio da

sua exposição sobre o comportamento da semente de algodão.

Ele desenterrou meia dúzia de sementes - começando a brotar - para mostrar-me, de uma maneira que nunca poderei esquecer, que antes que a semente lance qualquer broto para cima, lança uma longa raiz para baixo. Alguém poderia imaginar que a semente, uma vez enterrada, teria o suficiente da morte e lançaria seu primeiro broto para cima, para o ar, para a luz e a liberdade. Não, primeiro ela lança para o mais profundo de sua escondida sepultura.

Quão claramente, por meio dos tipos, símbolos e histórias do Antigo Testamento, o Espírito Santo lança luz sobre esse mistério - esse fato da nossa co-crucificação com Cristo.

Abraão teve de sacrificar seu filho. Isaque foi poupado, contudo, em espírito, Abraão o ofereceu. Foi por ele ter feito isso que a promessa foi dada: "... deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia na praia do mar" (Gn 22.17). E mesmo antes disso, lemos que foi de um homem "praticamente morto" (Hb 11.12 - NAA) que ele descendia.

José foi enterrado em uma prisão egípcia antes que ressuscitasse para se tornar um verdadeiro salvador, assentado no trono que parecia compartilhar com o poderoso Faraó.

Durante quarenta anos, nas encostas solitárias de Midiã, o impetuoso Moisés é educado. Ali houve sepulturas, se assim posso dizer, espalhadas por toda a encosta da montanha, onde

esperança após esperança foi enterrada, até finalmente o ego se render em completa aniquilação. A não ser por aquelas sepulturas, o homem de Deus que falou face a face com Jeová, que se tornou o gigante moral da antiguidade, e cuja mão dirigente será sentida nas questões das nações até o final dos tempos, não poderia ter existido.

Se Levitico, com os seus inumeráveis sacrifícios, seus rios de sangue, significa algo, significa que Deus encontra o homem em apenas uma base - a base da cruz.

A nossa era apaixonada pelo prazer, intoxicada pela excitação irá tapar seus ouvidos e rangerá seus dentes como aqueles que apedrejaram Estêvão. Porque essas coisas machucam.

Mas para aqueles que provaram do Senhor e anelam pelo vinho celestial aqueles que não podem ser satisfeitos com nada menos do que a plenitude do Espírito e cujo coração é, por assim dizer, "um forno de desejo" pelas coisas profundas de Deus essas verdades que cortam, queimam e arruínam a velha vida são bem-vindas com uma alegria inexprimível.


O doutor Henry Clay Trumbull, em seu magistral estudo dos antigos sacrifícios, The Blood Covenant (A Aliança de Sangue), aponta que todos os povos da antiguidade, de qualquer

raça, ou país, praticaram, de uma forma ou de outra, sacrifícios de animais ou de seres humanos. Ele sabiamente conclui de um estudo que o levou aos altares sacrificiais de inúmeros aborígines que um instinto tão universal e tão profundo revela o fato de

que o homem, em sua cega tentativa de buscar a Deus, movido pela intuição mais profunda da raça humana, nunca tentou estabelecer um relacionamento harmonioso com o divino sem que fosse com base na morte.

Os israelitas devem descer até o vale do Jordão, deixando no leito do rio doze pedras, para entrarem na terra que mana leite e mel. As águas voltam logo que Israel passa, enterrando as doze pedras, que simbolizam as doze tribos. Israel não pode habitar em Canaã sem uma constante permanência na morte por meio das doze pedras simbólicas enterradas no leito do rio (Js 4.9).

Davi não chega ao trono até que nas cavernas dos filisteus, onde foi perseguido como um cão pelo enraivecido Saul, ele morre inumeráveis mortes. Os salmos, com todos os seus variados encantos, tão adaptados à aflição humana, com seus seráficos desdobramentos da vida de comunhão, não poderiam existir a não ser pela crucificação interior no coração do doce cantor de Israel, ocasionada pelas loucas perseguições de Saul.

Isaías vê o Senhor e perece. Ele deve ser purgado da velha vida por uma brasa viva do altar do Céu. Jeremias morre mil mortes quando chora sobre o povo escolhido. Jonas é

ao mar e engolido por um grande peixe - então não sai dali até ser inteiramente purgado do ego. O povo de Deus nunca, em nenhuma época, alcançou o topo da montanha da realização espiritual, a glória da inquebrantável comunhão com o Altíssimo, sem ter a "vida do ego", a "vida da carne", conduzida muitas vezes ao pó da morte.

Quando a "amada" do Cântico dos Cânticos clama: "Beija-me com os beijos de tua boca" (a linguagem simbólica do Cântico dos Cânticos indica a sede da alma pela união com Cristo),

rapidamente segue a confissão: "O meu amado é para mim um saquitel de mirra [amargo]... Como um racimo de flores de hena [árvore de cemitério] nas vinhas de En-Gedi, é para mim o meu amado". Ah sim! Deve haver morte. O Amado não pode nos conduzir à união com Ele sem uma profunda participação na Sua cruz.

A irritável, gananciosa, egocêntrica, atarantada, sensual, detestável "vida da carne" (veja Gálatas 5.19 para uma análise da "vida da carne") deve morrer. Deve ser absoluta e impiedosamente encerrada. Neste ponto, o nosso Salvador deve ser firme. Ele não ousa tratar com indulgência. Ele não deve hesitar. Ele é compelido a ser severo. Ele não pode nos conduzir ao mais elevado sem nos separar do mais inferior. Você tomou o seu lugar com Cristo em Sua morte? Por meio de um ato de fé você precisa lançar mão daquela morte como a sua morte; precisa colocar a cruz de Cristo entre você e o "corpo do pecado". Você precisa aprender a recusar, com base na sua crucificação da vida natural, a assim chamada "vida da carne". Você precisa tomar a sua posição com Cristo no fundamento do Calvário e, toda vez que a "vida do ego" reivindicar os seus direitos e exigir o seu reconhecimento, dizer: "Em Cristo morri. Em Seu nome a recuso". Feito isso, o Espírito Santo dará testemunho da sua fé e o libertará e o manterá livre.


F.J.Huegel



NOTAS DO PUBLICADOR DA POSTAGEM

 

(¹) Embora o autor usou esse termo ‘divindade’ como nossa participação, entendemos que como criaturas, jamais seremos ‘divinos’ em nós mesmos, senão que somos participantes da natureza de Deus e continuaremos segundo o seu eterno propósito. Em outras palavras, sempre e eternamente seremos o que o próprio Deus determinou que fôssemos: seus filhos (filiação), seus servos (sacerdócio), sua família real (realeza), conforme sua economia dispensacional e eterna... A menos que ainda não tenhamos visto conforme a luz que o autor recebeu do Senhor. Que o Senhor nos esclareça em tudo. 


Participantes da Cruz: A Morte de Cristo É a nossa Morte

 


Unidade com Cristo


O meu objetivo é traçar, passo a passo, o alcance deste grande princípio da participação em Cristo - medir, por assim dizer, o comprimento, a largura, a profundidade e a altura desta maravilhosa identificação do crente com o seu Salvador. Cristo e todos os verdadeiros crentes são um. Eles constituem Seu corpo.

Eles são, na linguagem de Adão, "o osso do Seu osso e carne da Sua carne". Exatamente quais são as implicações dessa unidade com Cristo - a glória esmagadora de tal posição - a maior parte dos cristãos nunca teve nem mesmo uma suspeita.

Possa o Pai das Luzes nos capacitar a não apenas entender, mas a entrar neste templo sagrado e perceber a nossa unidade com Cristo.

Esta é a única fonte que pode extinguir a nossa sede. Não há nenhum outro caminho para o cumprimento das nossas mais profundas aspirações como cristãos.

Devemos ter em mente que o ofício do Espírito Santo é enxertar o crente em Cristo, como um jardineiro enxertaria a vara de uma árvore no corpo principal de outra. "Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo..." (1 Co 12.13).

Paulo escreve longamente sobre esse processo de enxerto no décimo primeiro capítulo de Romanos, onde ele fala do corte de Israel da Raiz, Cristo, e do enxerto dos gentios, para se tornarem participantes da Raiz.

A verdadeira conversão, em seu aspecto mais profundo, é justamente isso. Se ela falha em conseguir uma verdadeira enxertadura em Cristo, é falsa e, naturalmente por causa disso,

infrutífera. De fato, precisamos nascer de novo. Precisamos ser arraigados ao mesmo Tronco da Divindade Eterna. Simplesmente não nos esforçamos para imitar um Líder divino; grandíssimas e preciosas promessas nos foram dadas, pelas quais somos feitos participantes da Natureza Divina (2 Pe 1.4). O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Rm 8.16-17).

Foi o Espírito que nos convenceu do pecado, criando em nós uma profunda antipatia por ele e um desejo ardente de ser liberto do seu desonrante domínio. Foi o mesmo Espírito que nos revelou Cristo como a única saída: o nosso tirador do pecado (Jo 16.7-15). É o mesmo Espírito que nos une a Cristo, arraigando a nossa vida na Sua Vida Divina e nos fazendo crescer estando n'Ele, que é a Cabeça.

A Sra. Penn-Lewis, em um dos seus livros, mostra que no grego o muito amado texto de João 3.16 transmite um significado muito diferente daquele das nossas versões. Não é simplesmente aquele que crê em Cristo, mas antes aquele que crê estar n'Ele, que terá vida eterna. Pela cooperação do Espírito (e o Espírito Santo opera de tal forma em conjunto com o nosso espírito que muitas vezes estamos completamente inconscientes da

Sua obra) cremos em Cristo. Ele Se tornou a nossa vida. "Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele" (1 Co 6.17).

Mas esse enxerto exige algum corte, naturalmente. Se não morrermos para o natural, como podemos esperar viver para o sobrenatural? Paulo expressa isso assim: "Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos" (Rm 6.8). A vara que, em desacordo com a natureza, é enxertada em uma árvore de outra espécie deve morrer para a velha vida. Ela deve lançar suas raízes em um novo tronco. Ela recebe uma nova vida. A sua relação com a velha vida é rompida tão radicalmente, tão completamente e tão continuamente, que para ela não existe mais. Ela é absorvida pela nova com uma constância que ocasiona uma verdadeira fusão das duas.


O Pecado da Individualidade


Um estudo da biografia dos cristãos revela o fato de que os grandes santos da Igreja (e uso esse termo em seu sentido bíblico, como descritivo de todos aqueles que viveram realmente em e para Cristo) experimentaram, com poucas exceções, o que alguns chamaram de "uma segunda obra da graça". Chegou um momento em que eles almejaram uma participação mais plena na vida de Deus. Podemos chamar isso de santificação; outros deram ênfase ao aspecto do descanso, e chamam de "descanso da fé". A ênfase moderna parece ser sobre os aspectos vitoriosos - é a Vida Vitoriosa. Ou poderíamos chamar isso de Vida Abundante. Seja o que for, a experiência cristã não estará presa a terminologias -, o fato é que, mais cedo ou mais tarde o cristão é despertado para um sentido do pecado da "individualidade". Não há nenhuma razão, bíblica ou outra qualquer, para que os cristãos não devessem, imediatamente depois da conversão, ser conduzidos a essa etapa, mas os fatos indicam que eles normalmente vagam durante alguns anos no deserto de uma afeição dividida antes de entrar na terra que mana leite e mel.

Mais uma vez, é o Espírito Santo que opera no crente a convicção do pecado de um coração dividido. Ele mostra ao crente quão tragicamente a vontade própria frustrou o propósito de Cristo de conduzi-lo à plena união com Ele. Ele revela com torturante precisão e clareza esmagadora as consequências terríveis da "vida do ego" em sua inimizade com Cristo e o seu poder para abafar a vida do espírito. Ele mostra ao crente a duplicidade do seu caminhar, a vergonha de uma piedade vazia, o escárnio de uma devoção superficial a Cristo. O crente passa a perceber que está de novo crucificando a Cristo pela sua avidez ao prazer, pela sua ganância pela excitação e sua paixão por si mesmo. Ele vê que, embora tenha sido arraigado em Cristo, ainda está extraindo muito das velhas raízes. Ele vê quão turva é a corrente da sua vida, o quanto manchou as águas, o quanto o mau cheiro da "vida do ego" arruinou o perfume das flores que cresceram ao seu lado. Ele começa a entender Romanos 7. Ele também poderia ser liberto. O clamor secreto do seu coração também se torna: "Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?".

Isso marca uma crise. Chegou a hora de uma nova revelação do alcance e da eficácia da obra redentora de Cristo. Os olhos do crente precisam ser agora abertos para o significado dos aspectos mais profundos da cruz de Cristo.


Reveladas as Verdades Mais Profundas


A cruz é revelada. O Espírito Santo revela Cristo, desta vez não como Aquele que tira o pecado (embora o crente nunca fique além da necessidade de uma apropriação constante da eficácia do sacrifício de Cristo pelo pecado), mas como o escape para essa coisa repugnante que chamamos de "ego". É uma visão de si mesmo como alguém unido a Cristo em Sua morte - crucificado com Cristo -, visão que agora o Espírito concede ao crente. Ele é levado a ver que também morreu para o pecado na morte do Salvador e foi eticamente entregue a uma posição de morte para que pudesse ser levado pela ação cataclísmica a uma participação corporativa da cruz e da sepultura do Filho do Homem, para sair do domínio da "vida do ego" para uma nova vida de poder divino.

Ele começa a ver que, sem essa participação na morte do Filho do Homem, o pecado, como um princípio (aquela mesma coisa que precipitou o drama abominável do Calvário), continua a operar nele e colocá-lo, de certo modo, em uma posição de cumplicidade com os próprios assassinos do Salvador. Ele percebe que se não conseguir assinar a sentença de morte do "ego", a sua posição como um crente fica completamente insuportável, o ápice das contradições.

Ele começa a perceber que Cristo não apenas morreu por ele como um pecador, mas que ele, como um pecador, potencialmente morreu em Cristo para o pecado e que o primeiro sem o último o envolverá em contradições morais profundamente repugnantes e infames. A lógica de tudo isso abate sobre ele com a força de um demônio e o impelem da sua posição de duplicidade (inconscientemente mantida, sem dúvida). Ele precisa morrer com Cristo para o pecado ou continuar crucificando Cristo - a mente carnal é inimizade contra Deus (Rm 8.7). Ele percebe que, a não ser que o ego seja crucificado, Cristo é crucificado.

Tudo isso é obra do Espírito Santo. Não é natural para um homem virar-se contra si mesmo e começar a odiar aquilo que pela natureza ama mais que qualquer outra coisa sob o sol, ou seja, o "ego".

O Espírito Santo, conforme escreve o doutor A. B. Simpson no livro Dias de céu na terra², é o grande Empreiteiro que finalmente nos conduz ao lugar para o qual Deus nos destinou, isto é, para um compartilhamento da sepultura de Cristo. Mas Ele não pode nos conduzir à participação na vida de crucificado - nos conduzir ao lugar chamado Calvário sem o nosso consentimento. Devemos consentir na morte.

Tudo o que a cruz significa de dor e vergonha, ignomínia e morte - o partir do Coração de Cristo não é nada mais nada menos do que o modo infinitamente delicado e moral de Deus para nos conduzir a uma disposição para morrer. Isso não seria um exagero se Ele pudesse apenas nos persuadir de nós mesmos e alcançar o nosso consentimento para morrermos.

É por isso que a cruz salva. Não é pela magia divina. Não é simplesmente que Cristo tomou o nosso pecado. Ele fez isso, mas o propósito do Calvário vai infinitamente além disso. De certo modo, concordo com Lord Beaconsfield³, que difama a doutrina da expiação e diz que ela é positivamente imoral. Como concebida por muitos, é imoral. Se o mérito da morte substitutiva de Cristo para que eu esteja diante de Deus é apenas algo que pode ser-me imputado simplesmente porque aceito o sacrifício do Salvador e não tem efeito na minha maneira de viver - se ele deixa a erva venenosa, que chamamos de pecado, crescer em mim - então, por tudo que é razoável, eu digo que a cruz é imoral. 

Mas esta não é a cruz de Cristo. É a cruz mutilada dos cristãos modernos. A cruz de Cristo é substitutiva porque "o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos", mas é mais do que isso. A própria natureza da obra redentora de Cristo consumada no Calvário é tal que você não pode receber os seus benefícios penais sem participar dos seus benefícios morais. Isto é, se você olhou para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo sem chegar a uma profunda vontade de ser separado do ego - desarticulado do falso centro, o ego, para ser articulado ao verdadeiro, que é Deus -, então é seguro dizer que o propósito

real de Deus naquele indescritível evento, que um escritor chamou de o momento mais sublime na história moral de Deus, simplesmente não foi alcançado. O Espírito Santo nunca teve uma chance de operar em você para conduzí-lo a uma participação espiritual na morte do Filho de Deus, que na economia divina foi corporativa - o Corpo, a Igreja, morrendo em seu divino Cabeça.

O principal dos apóstolos viu isso tão claramente que dá um grito, como se tivesse sido apunhalado, quando o assustador pensamento da possibilidade de continuar em pecado, depois da fé em Cristo, é sugerido - uma doutrina que até na Igreja primitiva teve a sua aceitação. "Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?".

Por que não, se, no final das contas a salvação, como tantos estão acostumados a pensar nela, é simplesmente uma libertação das consequências penais do pecado? "Ah!", diz o apóstolo, "como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?

Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na Sua morte? Fomos, pois, sepultados com Ele na morte... fomos unidos com Ele na semelhança da Sua morte... foi crucificado com Ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído... quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado... considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus" (Rm 6.1-11).

A verdade fora de proporção, foi muito apropriadamente dito, se torna um erro. A verdade sobre a morte substitutiva de Cristo sem o que encontramos em Romanos 6 - isto é, o fato, no bom julgamento de Deus, da nossa participação na cruz, da nossa união com Cristo na Sua morte para o pecado, da nossa voluntariedade, numa palavra, para que o Espírito termine com a velha vida do "ego", a vida carnal, que é inimizade contra Deus, separando-nos do "ego" e nos centrando em Deus, a verdade, repito, do primeiro afirmada sem a verdade do último conduz a uma confusão que o erro sempre acarreta; é um Evangelho decapitado, o qual pode causar, em alguns casos, mais dano do que bem.


Crucificada a "Vida do Ego"


Nas memórias da Sra. Penn-Lewis, há uma história estranha conectada a sua visita à Índia, que encaixa de forma muito bela nessa linha de pensamento. Um missionário, que mais tarde, com o zelo de um apóstolo, se entregou à tarefa de propagar os escritos da Sra. Penn-Lewis, os quais na sua maioria versam sobre a identificação do crente com Cristo em Sua morte e ressurreição, teve um sonho que muito o impressionou. Foi da cruz de Cristo. Contudo, não foi a aparência sangrenta do Salvador que chamou sua atenção. Era algo excessivamente feio, indescritivelmente repugnante, cuja natureza ele não pôde decifrar. O

que era isso que tanto o horrorizou? Mais tarde, quando ouviu a mensagem da identificação e compreendeu que tinha sido crucificado com Cristo, o Espírito revelou a ele que aquela coisa repugnante que tinha visto em seu sonho não era nada senão ele mesmo.

Que a Igreja possa alcançar uma nova visão do Calvário e venha a apreciar o significado dos aspectos mais profundos da cruz! Que os cristãos possam perceber que o objetivo de Cristo foi o de acabar, por assim dizer, com a "velha criação", levando o homem (Cristo era o Filho do Homem) para a sepultura para destruir o "corpo do pecado", pondo fim à "velha vida", e então gerá-lo no poder da ressurreição, impregnado com a dinâmica da vida celestial! Falando dos judeus e gentios, Paulo diz: "...[Cristo] aboliu, na sua carne, a inimizade... para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem... por intermédio da cruz" (Ef 2.15-16). Que revolução espiritual isso operaria na vida da Igreja! Uma onda de vida divina passaria impetuosamente por ela, revitalizando os membros do corpo de Cristo, muitos deles enfraquecidos no pântano do desgaste espiritual, com uma alegria renovada e os incendiando com uma vida celestial - a Vida das Eras.

A Igreja, como disse o grande pregador francês Lacordaire, nasceu crucificada; e a menos que, como a sua divina Cabeça, caia na terra e morra, permanece só, os rios vivificantes não podem jorrar do seu seio. Não é, como um dos nossos irmãos britânicos disse, um grande mover no campo da realização carnal, mas um morrer divino, que trará a Igreja de novo para um flamejante zelo apostólico e uma frutificação comparável com aquela dos cristãos primitivos.

Deus nos concede a graça de sermos esclarecidos sobre uma coisa: Cristo não entra na nossa vida para remendar o "velho homem". É aqui onde as inumeráveis multidões de cristãos têm estado "penduradas". Elas pensam que a missão de Cristo foi de "torná-las melhor". Não há absolutamente nenhuma base bíblica para tal ideia. Jesus disse que não tinha nenhuma intenção de derramar Seu vinho novo em odres velhos. Ele disse que não tinha vindo para trazer a paz, mas uma espada. Ele disse que a menos que um homem renunciasse completamente a si mesmo, não poderia ser Seu discípulo. Cristo não vem a nós para simplesmente arrumar a "velha vida". Ele nunca prometeu nos tornar melhores. Toda a Sua obra redentora consumada na cruz descansa sobre a suposição (é mais que uma suposição - Deus diz que é um fato) que a condição do homem é tal que somente uma morte e um nascer de novo podem possivelmente satisfazer as exigências neste caso. Em vez de tentar remendar o homem e então deixar que ele imite da melhor forma que puder o modelo dado na Judéia há dois mil anos, Cristo o leva para a sepultura, onde a "velha vida" é totalmente acabada, e então o faz participante da Sua ressurreição. Cristo, o nosso Senhor, nos une a Ele e nos comunica uma "vida" inteiramente "nova".

Mas temos a nova sobre a base da nossa recusa da velha.


Cristo é a Videira, nós somos os ramos. Ele é a Cabeça, nós formamos o corpo.


As epístolas de Paulo são entremeadas por um significativo "se", que muitas vezes nos aponta para o Calvário e nos choca com uma imperativa demanda - devemos consentir em sermos co-crucificados. "Se já morremos com ele, também viveremos com ele..." (2 Tm 2.11). "Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição. (Rm 6.5). ".. se perseveramos, também com ele reinaremos. " (2 Tm 2.12).



O Rádio do Calvário


Há pouco tempo, estava lendo sobre a estranha sina de certas jovens que são empregadas em um laboratório onde o contato com o rádio é inevitável. Essas jovens sabem que, após ingressarem nessa fábrica, o destino delas está selado. Elas morrerão. Depois de alguns meses, ou anos, não me recordo o tempo exato, elas são liberadas do seu trabalho com um belo cheque de dez mil dólares. Algumas vivem um ano, outras dois, outras três, mas todas morrem pelos efeitos do rádio. Essa é a razão da abundante remuneração. Os médicos examinaram meninas que estiveram em contato com o rádio e descobriram, por meio de raios X, que um fogo estranho, que lentamente consumia a vida, queimava em seus ossos. O rádio mata. Ele é a força mais altamente concentrada conhecida pelos cientistas.

Há dois mil anos, ali na manjedoura em Belém, Deus deu ao mundo Seu Filho Unigênito. N'Ele estava concentrado o amor infinito do Pai. Mas toda a força daquele amor redentor não foi liberada para um mundo abatido pelo pecado até que ali no Calvário o coração flamejante do Amado quebrou. Foi então que Rádio Celestial foi focado sobre o grande câncer do pecado e vergonha da humanidade. O rádio mata. Não há nenhum poder

debaixo do céu que possa resistir a sua concentrada dinâmica.

A cruz mata. O homem que se expõe ao Calvário logo descobre que um fogo escondido queima dentro dos seus ossos. A velha "vida do ego", tão ressentida, tão atarantada, tão gananciosa e tão sensível, tão arrogante e tão vã, tão cega para tudo, menos para a sua própria concupiscência particular, tão pronta para sacrificar o bem de muitos se apenas a sua própria honra puder ser assegurada - a velha "vida do ego" não pode resistir ao impacto do Calvário mais do que um frágil barco a investida de uma grande onda.

O Doutor Mabie, em sua notável obra A cruz, fala da morte do Salvador como "Imortal morte". Ela gerou uma força - a força moral destrutiva do pecado - perto da qual todas as éticas frias das eras, todos os preceitos dos moralistas, sim, todas as leis das nações são como o cintilar de uma estrela comparado ao brilho do sol em seu apogeu. De fato, não foi uma mera morte.

As rochas foram fendidas e a terra tremeu quando naquela hora de triunfo o Filho do Homem clamou (os evangelistas insistem que foi com "grande voz") "está consumado". A vida não se esgotou simplesmente. A sua força aumentou. Por isso na hora final o grande Clamor de Consumação sacudiu a própria terra. "O centurião que estava em frente dele, vendo que assim expirara, disse: Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus" (Mc 15.39). Corretamente o doutor Mabie fala do "processo intermediário da morte e ressurreição". A ressurreição estava na morte, e a morte está na ressurreição. Agora este Rádio Moral concentrado, se posso assim dizer, é liberado no espírito do crente quando ele se rende ao Cristo da cruz. A "velha vida" dominada pela dinâmica da cruz é condenada à morte. A vida de ressurreição toma o seu lugar. Não é à toa que o apóstolo dos gentios clamou: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo" (Gl 6.14).

“... mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus..." (1 Co 1.23-24). (Poder, no grego, dunamis, de onde provém a palavra dinamite.)


              F. J. Huegel


A Vida Cristã: Uma Participação, Não uma Imitação

 


Ninguém pode fazer um estudo do Novo Testamento sem experimentar algo como um choque, em vista da notória diferença entre a vida cristã como estamos acostumados a viver e o ideal do Mestre. 

A desanimadora incongruência e as dolorosas contradições são tão terrivelmente evidentes, que até aqueles que têm apenas o conhecimento superficial da Palavra do Salvador - sim, ousamos dizer, até aqueles que nunca investigaram as páginas do Novo Testamento - ficam chocados. Por menor que seja a fé que possam ter, ela é abalada.

Quando alguém se depara com o quadro da vida cristã conforme exposta pelos apóstolos, e que hoje caminha sob o nome dela, fica vacilante. O corpo emaciado de um amigo morto - para não dizer o seu cadáver - não poderia estar em um contraste mais violento com aquele que durante os dias de saúde e vigor andou ao nosso lado.

Não é o meu objeto esmiuçar o cristão moderno. Não tenho nenhuma rixa com a Igreja. Não estou pretendendo desempenhar o papel de um iconoclasta. Fui durante dez anos um missionário da cruz e não tenho intenção de desertar das fileiras. O meu único objetivo em chamar a atenção para o nosso fracasso como cristãos é apontar o caminho para a vida vitoriosa em Cristo para aqueles que estão conscientes da sua pobreza espiritual e têm "fome e sede de justiça".

A quem, então, dirijo esta mensagem?

É para o cristão que se encontra à beira do desespero, por causa do quadro repulsivo que ele mostra todas as vezes que anseia refletir fielmente a imagem do Mestre, que é dirigida esta mensagem. É para aquele cuja sede por água da vida, longe de ser extinta, o consome, e o deixa doente de desejos ardentes, que com prazer abrirei o segredo da vida abundante - a vida da qual Jesus falou quando disse que "rios de água viva" fluiriam do interior daqueles que cressem. É para aquele que está cansado das imitações vazias, enjoado das fraudes - que se tornou vítima de uma auto-repugnância secreta, aquele que sente que, como um cristão, deveria ser liberto do poder do pecado e, apesar de todas as suas lutas, é esmagado por um sentimento de fracasso - que eu desejo trazer a mensagem da cruz. É para aqueles que anelam por poder - aquele poder que é do Alto -, aqueles que desejam ter sua vida e serviço, ministério e pregação dirigidos pelo Espírito do Deus vivo, que sinto ter uma palavra que não falhará em conduzi-lo para um novo dia.

Mas devo resumir brevemente os requisitos da vida cristã antes de entrarmos na minha tese.


As Diretivas do Senhor


Devemos andar como Jesus andou (1 Jo 2.6).

Devemos amar os nossos inimigos (Mt 5.44).

Devemos perdoar como Jesus perdoou - assim como Ele, que, na vergonha e angústia da cruz, olhou para aqueles que O blasfemavam, enquanto O assassinavam, e os perdoou (Cl 3.13).

Devemos ser ativamente amáveis em relação àqueles que nos odeiam, sim, devemos realmente orar por aqueles que maliciosamente nos usam (Mt 5.44).

Devemos ser vencedores - mais do que vencedores (Rm 8.37).

Devemos dar graças em todas as coisas, crendo que todas elas, até aquelas que arruinam as nossas mais afetuosas esperanças, contribuem para o nosso bem (Rm 8.28; Ef 5.20).

Não devemos andar ansiosos de coisa alguma, mas em tudo, por meio da oração e súplica, com ação de graças, os nossos pedidos se tornem conhecido para Deus, para que a Sua paz, que excede todo o entendimento, possa guardar o nosso coração e a nossa mente (Fp 4.6).

Devemos sempre nos alegrar no Senhor (Fp 4.4).

Devemos pensar em tudo o que é verdadeiro, tudo o que honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo que é de boa fama; se há alguma virtude e se há algum louvor (Fp 4.8).

Devemos ser santos, pois Deus é santo (1 Pe 1.16). O Salvador disse que se crermos n'Ele, rios de água viva fluirão do nosso interior (Jo 7.38).

Devemos permanecer firmes, em inconfundível contraste com o mundo corrompido, perverso, sem culpa e irrepreensíveis, filhos de Deus, sem censura, brilhando como astros (Fp 2.15).

Devemos positivamente nos odiar - não mimar, nem acariciar, nem buscar, nem amar a nós mesmos, mas literalmente odiar e renunciar a nós mesmos, e isso diariamente (Mt 16.24).

É-nos dito que não podemos ser discípulos de Cristo se não renunciarmos a nós mesmos completa e absolutamente em todas as coisas, e em todo tempo (Lc 14.26). Paulo nos diz que as nossas afeições devem ser colocadas nas coisas do alto (Cl 3.1).

Basta! Não ousamos ir além. Isso somente aumentaria a nossa vergonha e a nossa dor. Somos culpados. Não somos o que Cristo queria que fôssemos. Se essa é a medida da vida cristã, se essa é a base sobre a qual devemos ser julgados, se isso é o que Deus requer de nós como cristãos, como Isaías clamaremos: "Ai de mim! Pois estou perdido" (Is 6.5).

Por que o Salvador - tão gentil, compreensivo, amável e sábio - não faz exigências mais de acordo com a natureza humana? Por que Ele parece ser tão desarrazoado? Por que Ele

não exige de nós o que poderíamos razoavelmente alcançar? Ele nos oferece as alturas, contudo não temos asas. Fala sobre o super-homem; não é tanto uma mera superabundância de homem que se é requerida. Parece mais ser um homem deificado, por assim dizer, que o Novo Testamento proclama como o tipo do verdadeiro cristão. Por que o Salvador vai assim tão além do simplesmente natural e coloca o cristão vivendo numa base sobrenatural? Afirmo que não é natural amar os nossos inimigos; não é natural alegrar-se sempre; não é natural ser agradecido pelas coisas que machucam; não é natural nos odiar; não é natural andar como Jesus andou.


Nosso Doloroso Dilema


Honestamente enfrentamos este dilema? Temos tido coragem para enfrentar as implicações da Palavra de Cristo? Algumas coisas são ganhas por meio de subterfúgios, fingindo que o abismo entre o humanamente possível e a lei de Cristo (isto é, o que podemos alcançar pelo natural e o que Deus requer em Sua Palavra) não é afinal tão grande?

Se nenhuma resposta satisfatória pode ser dada (minha argumentação, conforme declarada nos próximos capítulos, é que pode), o sistema cristão merece as difamações dos seus inimigos. Ele deve enfrentar a grave acusação de enfático, exagerado, fanático, ou o que quer que possamos chamar isso carece de ajustamento entre a lei de Cristo e natureza humana.

Esse não é nenhum novo dilema. Paulo, o grande apóstolo dos gentios, não tem nenhuma dúvida sobre a sua convicção de que a natureza humana, como tal, nunca pode alcançar o ideal de Cristo. Ele não minimiza a esmagadora incongruência. Ele deixa notório o fato de que a lei de Cristo, é um ideal completamente inalcançável, é algo ao qual a natureza humana, como tal, nunca pode se adaptar, que se distingue em toda a sua nua

realidade.

Romanos 7 é testemunha desse fato. Aqui temos a confissão do fracasso do apóstolo, o seu brado de desespero, o seu amargo pesar por descobrir o inalcançável ideal cristão, o seu gemido sobre aquilo que descobriu ser um dilema dilacerante, sua honesta admissão de que de fato acredita que as exigências da lei de Cristo são algo ao qual a natureza humana, como tal - lute o quanto você quiser, agonize o quanto você quiser -, nunca pode se ajustar.

Para que eu não seja mal entendido - para que os meus leitores não fiquem chocados por algo aparentemente tão heterodoxo -, citarei as próprias palavras de Paulo: "Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço... Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei [sim, há o atrito] que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm 7.19, 22-24).

As lutas de Paulo. Ele agoniza. Ele chora. Ele se esforça como somente este gigante moral, um dos maiores de todos os tempos, poderia se esforçar - tudo em vão. A lei do pecado, ele confessa, como a investida de uma corrente poderosa, varre tudo diante dela.

Fazemos bem em enfrentar de modo direto todos os aspectos chocantes desse dilema. Paulo o fez. Ele não jogou uma cortina de fumaça nem sobre a sua própria incapacidade, por um lado, nem sobre o caráter inalcançável da lei de Cristo, por outro. Ele é surpreendentemente franco a respeito do fato de que nele mesmo (isto é, em sua carne, Romanos 7.18) não pode encontrar nenhuma coisa boa. Ele francamente reconhece que se deleita na lei de Deus, ama-a, mas descobre que é algo que a natureza humana não pode alcançar. Se formos honestos sobre essas coisas, veremos a nós mesmos conduzidos, quase involuntariamente, a tomar certas medidas que nos levarão o mais seguramente a um glorioso novo dia. Isso conduziu Paulo a uma grande descoberta. Isso nos conduzirá.

Não foi porque Paulo, quando escreveu Romanos 7, ainda era obstinadamente desobediente, como nos dias anteriores à crise do caminho de Damasco. Ele realmente amava Jesus. Ele era um soldado da cruz. Ele era um cristão consagrado. Foi somente porque ele se via agora em uma nova luz - na ofuscante luz da cruz de Cristo. O que antes, como um discípulo estrito de Moisés, teria sido escusável, agora o esmaga com sua magnitude. Pequenas coisas inocentes, atitudes comparativamente inofensivas, pequenos pecados insignificantes que sob a lei mosaica passariam despercebidos se não parecessem ser virtudes reais, agora partem o seu coração. Eles são repulsivos. Eles são insuportáveis. Eles parecem queimar como o fogo do inferno. Eles picam como a mordida de um escorpião. Eles cheiram mal como uma carcaça em decomposição em uma poça viscosa.

Paulo quer se parecer com Jesus. Não é mais uma questão de mera ética. Não é mais uma questão de certo ou errado. É semelhante a Cristo? Esta é a questão abrasadora.

Paulo quer ser livre. O egoísmo, até em suas formas secretas, seus gestos inofensivos, causa-lhe náuseas. Ele desejava se parecer com Jesus em todo o encanto da sua humildade e da sua compaixão. Ele desejava amar a Deus com um amor puro e servi-lO com aquela absoluta simplicidade de olhar que caracterizou o "Unigênito do Pai". Em um ataque de ódio em direção a si mesmo, e na angústia da desesperança em si mesmo, o apóstolo clama por libertação (Rm 7.24).


Nossa Chave para a Libertação


Há um escape? Sim, há. Paulo o encontrou - todos nós podemos encontrá-lo.

Sendo assim, a minha tese é esta: estamos agindo sobre uma base falsa. Temos imaginado a vida cristã como uma imitação de Cristo. Ela não é uma imitação de Cristo. Ela é uma participação de Cristo. "Porque temos nos tornado participantes de

Cristo..." (Hb 3.14). Há boas coisas no livro Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis¹, mas a ideia básica é falsa para os princípios que são a base da vida cristã. Agir com base na imitação nos mergulhará justamente em um tipo de brejo de desespero em que Paulo se encontrou quando escreveu Romanos 7.

Não somos o que Cristo queria que fôssemos; o Sermão do Monte não encontra expressão nas nossas atitudes; o pecado como um princípio é ainda excessivo em nossa vida; não somos livres da inveja, do orgulho, do egoísmo e da concupiscência do prazer; a montanha do egoísmo secreto ainda nos esmaga e apesar de todos os nossos esforços permanece imóvel; há pouca alegria, portanto pouca liberdade de espírito, nada daquele êxtase que tanto caracterizou os primeiros cristãos; agonizamos, sangramos e lutamos - mas o fracasso acossa as nossas pegadas. Qual é o problema? Estamos agindo sobre uma base falsa.

Estamos tentando fazer o que o próprio Salvador nunca esperou que fizéssemos. A vida cristã não é uma imitação!

O grande dilema do qual estivemos falando é resolvido nos termos mais simples quando compreendemos a distinção entre imitação e participação. Porque o que é impossível para mim como um imitador de Cristo se torna perfeitamente natural como um participante de Cristo. É somente quando Cristo anula a força da minha inerente "vida do eu" e comunica a mim uma vida divina que a vida cristã, em seu verdadeiro sentido, é totalmente possível para mim. Devo nascer de novo. "... a carne para nada aproveita..." (Jo 6.63). Sem Jesus não posso fazer nada. Devo viver n'Ele e, renunciando à minha própria vida, encontrar n'Ele "uma nova vida".

Para essa "nova vida," as exigências cristãs, tão incompreensíveis e inalcançáveis enquanto nos movemos no reino da "vida carnal", são muito simples. Elas são nada mais nada menos do que afirmações quanto ao seu modus operandi. O Sermão do Monte, longe de paralisar de alguma forma essa nova vida, é simplesmente uma afirmação da maneira como ela funciona.

O problema é que não escutamos Jesus. Ele nos diz que devemos permanecer n'Ele como uma vara na Videira. Mateus 5, 6 e 7 sem João 15 iria se parecer muito com caminhões sem o motor, com uma baleia sem a água ou um pássaro sem o ar.

Naquela conversa no cenáculo, o Mestre, sabendo que seria a Sua última oportunidade de imprimir fundamentos em Seus discípulos, dá a suprema ênfase sobre essa união mística, essa unidade espiritual de todos os crentes com Ele - esse fato sublime da participação. "... permanecei em mim, e eu permanecerei em vós" (Jo 15.4). Os nossos fracassos somente confirmam a Palavra do Salvador, pois Ele disse: "... sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5).

Não, não fomos chamados para imitar Cristo. Na verdade, apesar de tudo, haveria pouca virtude nisso. Paulo assim disse, de fato, no muitas vezes citado 1 Coríntios 13 - o capítulo do amor. Seria apenas uma obra de madeira, artificial. Mesmo aqui Jesus diria: "A carne para nada serve".

Há alguns anos, no país onde eu trabalhava como missionário, isso foi levado ao seu grau máximo quando um devoto zeloso se crucificou; ele literalmente se pregou a uma cruz, onde os seus pais o encontraram morto quando foram resgatá-lo. A Igreja corretamente não aplaude esse tipo de coisa, contudo teoricamente ela prossegue, no caso das vastas multidões de seus filhos, sobre essa base falsa da imitação.

O cristão não é chamado para se esforçar a desempenhar um papel, como um ator que se angustiaria com linhas pobremente aprendidas. A vida cristã, no pensamento de Deus, é infinitamente mais abençoada e atrativa. "Porque temos nos tornado participantes de Cristo..." (Hb 314). Grandíssimas e preciosas promessas nos são dadas "para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina..." (2 Pe 1.4). O crente está enxertado no Tronco da Divindade Eterna. "Eu sou a videira, vós, o ramos" (Jo 15.5).

"... a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória..." (Cl 1.27).


                 F. J. Huegel


Estamos em uma jornada espiritual

  " antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia ete...