O EVANGELHO PARA O CRENTE
Do Pecado Para a Justiça - Rm 6
O capítulo 5 concluiu com a graça no Trono no lugar da Lei. No capítulo 6 a pergunta é feita e respondida: "Pecaremos para que a graça abunde?" Pregar sobre a graça é algo difícil e Paulo ao tentar fazer isso usa todos os superlativos ao afirmar a sua vastidão no amor de Deus.
Todavia ele tem consciência do perigo da corrupção do coração humano que perverteria esta graça e a transformaria em sensualidade. Por isso ele passa da declaração de como a graça justifica o pecador, para mostrar como a própria graça pode ser justificada. Ele justifica a justificação dizendo que a graça e a justificação não são aliadas do pecado e sim os seus destruidores; que a graça não apenas remove a culpa do pecado, mas trata com o próprio pecado e produz santidade de vida e caráter.
Em outras palavras, que a graça reina em vida. A graça está no Trono, e por isso, não existe lugar para a licenciosidade. É verdade que não estamos debaixo da lei, mas ainda estamos "debaixo", debaixo da graça. A graça exerce o governo sobre nós ao invés do pecado, morte ou lei. A graça traz vida somente àqueles sobre os quais ela reina. Desse modo a graça e a justificação são justificadas.
Respondendo à pergunta "Continuaremos no pecado para que a graça seja mais abundante?”, o capítulo 6 tem quatro respostas: (1) Você não pode (1-11); (2) Você não precisa (12-14); (3) Você não deve (15-19); (4) É melhor não (20-23). Primeiro Paulo argumenta com aquele que faz a pergunta, depois faz um apelo, depois ordena e finalmente adverte!
O argumento: Você não pode;
O apelo: Você não precisa;
A ordem: Você não deve;
O aviso: É melhor não.
Esse é um resumo do capítulo. Mas vejamos outro.
"Continuaremos no pecado?" Isso é impossível para aqueles que morreram para o pecado (Rm 6.2). O verso 3 diz que é uma contradição da nossa confissão no batismo.
O verso 4 mostra que é inconsistente com nossa união com Cristo. Os versos 5 a 7 são um retorno à antiga escravidão.
Os versos 9 e 11 são uma violação do padrão da nossa vida, que é ser como Cristo em todas as coisas. Os versos 12 a 14 dizem que é desnecessário e priva a Deus das Suas armas na luta contra o pecado. Os versos 15 a 20 introduzem novamente a Satanás e o pecado como senhores. O verso 21 mostra que continuar no pecado ofenderia a consciência cristã. Os versos 22 e 23 declaram que terminaria em desastre. Este é o resumo completo do capítulo.
Existem três características regendo estas respostas com respeito ao ser libertado do pecado, mencionadas nos versos 17,18 e 22. O pecado aqui deve sempre ser escrito
com letra maiúscula, visto não ser mencionado no plural. A libertação dos "pecados" não é o assunto aqui, como no capítulo anterior: a justificação nos livra dos pecados. É algo mais avançado, pois é a libertação do Pecado como "senhor", agindo como tirano sobre os escravos. O tratamento é mostrado em três partes:
(1) A primeira trata com o método da libertação: o caminho no qual a liberdade é assegurada - Rm 6.1-11.
(2) A segunda trata com a nossa apropriação da libertação pela fé: a liberdade deve ser exercitada e desfrutada completamente - Rm 6.12 a 14.
(3) A terceira trata com o alvo e o resultado da nossa apropriação. A liberdade não é um fim; é a condição de algo maior: santidade e vida - Rm 6.15 a 23.
O Método do Livramento
Examinemos principalmente o método do livramento.
Existe um paralelo nos primeiros onze versículos de Romanos 5 e 6: No capítulo 5 temos estabelecida a implicação da morte de Cristo por nós; no capítulo 6 temos a implicação da nossa morte com Cristo. O nosso conhecimento do método da libertação não tornará
desnecessário estar em contato com o Único que pode nos libertar, a saber, Jesus Cristo. Você não pode colocar o método em prática; só Deus pode fazer isso. Deixe com Ele e com o Espírito Santo. O aprendizado nunca pode substituir a fé.
Como então a liberdade é efetuada? Pela morte! A morte é a entrada para a vida e é pela nossa própria morte. O livramento da culpa e penalidade do pecado só é possível pela morte de Outro por nós, mas o livramento da escravidão do pecado depende da nossa morte com Ele. O único caminho para o livramento do pecado é morrendo para ele, pois morrendo passamos para um nível onde não há pecado, onde o rompimento com ele é completo e final.
O pecado é contrário à atitude adotada e final do próprio cristão em relação a ele e é contrário à ação de Deus em relação ao velho homem. Os cinco primeiros versículos mostram a primeira atitude e o versículo 6 a segunda; desse modo o subjetivo do cristão é unido ao objetivo de Cristo. Aquela atitude de morte está implicada e simbolizada pelo batismo. Então morremos para o pecado: como viveremos ainda nele? O pecado é odiado, não os pecados - mas o Pecado - o senhor tirano. Quando fomos batizados, o nosso batismo significou que morremos para o pecado? Se não, vamos deixar que ele tenha esse sentido agora? Ele fala da união com Cristo, unidade, incorporação, associação com Ele. Esta união é uma coisa completa, pois é união com tudo o que Ele é em todos os seus relacionamentos. União com Ele em Sua morte, num corte definitivo com a velha vida. Em seguida vem o sepultamento. Morte e sepultamento são os portais da ressurreição, para que "assim também pudéssemos andar em novidade de vida" - nova em qualidade, em natureza, em caráter. Não me estranha Paulo ter orado para que pudesse conhecer "o poder da Sua ressurreição". Não existe outro poder adequado para a emancipação do pecado e para uma vida de santo serviço. Este é o método através do qual o poder da ressurreição opera. Toma posse disso e você evitará desapontamento e fracasso. A
novidade de vida é um resultado certo, se morremos com Cristo. União com Ele é uma união em todas as coisas, direto para a sua consumação (Rm 6.5). Você começa com a união com Cristo em Sua morte, e uma vez unido a Ele, você é levado imediatamente para dentro da Sua ressurreição. Ela não será nossa em toda a sua plenitude até este corpo físico ser feito como o corpo glorioso do Senhor Jesus. Então seremos em todos os sentidos semelhantes a Ele, mesmo no corpo, pois o propósito final disso é um novo corpo. Isso não nos priva da vida no presente, mas o "novo corpo" representa a conclusão do processo.
"Nosso velho homem foi crucificado com Ele, para que o corpo do pecado fosse destruído", incapacitado, tornado impotente e inoperante. Este corpo de pecado ainda é um de pecado mesmo no caso do crente. As tendências para o pecado estão nele. O pecado habita nos seus membros (Rm 7.23). Há concupiscências nele. "Não reine o pecado em vosso corpo mortal, para obedecerdes às suas concupiscências" (Rm 6.12). O corpo do cristão mais avançado e espiritual hoje é um "corpo de pecado”.
Quando o pecado é expulso do trono da vontade e do espírito, ele faz do corpo a sua fortaleza. É o fato da presença do pecado nos membros físicos que desperta o
gemido pela redenção deste corpo, conforme nos mostra Romanos 8. A realidade atual é que o nosso corpo é um "corpo de pecado", e a esperança futura é a redenção deste corpo; as duas estão constantemente diante de nós nestes capítulos. Não existe dificuldade com respeito ao sentido do "corpo do pecado". Parece-me que Paulo o usa no sentido
literal como se referindo a este corpo pecaminoso - o "corpo mortal" com seus desejos (Rm 6.12).
Crucificados Com Cristo
E sobre o velho homem? O termo parece necessário por descrever algo que estava nele antes do "novo homem" passar a existir. Em Gálatas 2.20 o velho homem é chamado de "Eu": "Eu fui crucificado com Cristo".
Podemos dizer que o "velho homem" é a velha personalidade, mas isso parece exagerado, pois parece ser mais do que queremos dizer. Relacionado com isso Paulo usa a palavra "carne". Durante anos eu confundi o "velho homem" com a "carne", pensando que era a mesma coisa.
Agora vejo que isso é impossível, pois existem duas declarações a respeito do velho homem: (1) "Nosso velho homem foi crucificado com Cristo" (Rm 6.6); (2) Nas cartas aos Efésios e Colossenses o velho homem deve ser despojado. Na verdade ele foi despojado. O Calvário é o lugar onde o velho homem foi crucificado, e nós mesmos, como também nossos pecados, fomos levados ali. O velho homem foi executado como um criminoso e rebelde sem esperança. Este velho homem crucificado é claramente distinto da nossa morte para o pecado. O velho homem não morre para o pecado; ele morre em seus pecados. É preciso um "novo homem" para morrer para o pecado. O "novo homem" concorda com Deus em que o único lugar para o velho homem é na Cruz e por isso despoja do velho
homem. A tarefa de crucificar o velho homem não é deixada aos nossos cuidados; Deus já fez isso, e devemos considerar isso como já tendo sido feito. Mas a "carne" é
deixada para o novo homem crucificar (Gl 5.24). O velho homem é crucificado, mas sua natureza, suas tendências, seus hábitos involuntários permanecem. O “velho homem” usou o mecanismo do nosso ser por tanto tempo que, num curto momento de desvio ele, num ímpeto momentâneo, é capaz de agir involuntariamente e por causa do costume habitual clamar por satisfação. São "os feitos do corpo"
(Rm 8.13) que devem ser mortificados.
O caminho da libertação é indicado. Somos justificados do pecado. Nenhum senhor pode fazer uma exigência legal sobre um servo que esteja morto. Se ele escapa e é
apanhado, pode ter que responder a um processo criminal, mas o escravo morto está livre. Os escravos do pecado estão mortos, e o pecado, como o antigo senhor, é forçado a reconhecer isso. Mas a morte do escravo é apenas um lado dessa questão. “Porque se morremos com Cristo, cremos que viveremos juntamente com Ele". Partilhamos dessa vida agora. Precisamos da vida Dele antes de poder morrer para o pecado e tudo o que o pecado outrora significou para nós, com Ele. Precisamos da Sua vida a fim de nos considerarmos cada dia mortos para o pecado.
Observe de novo que isso não é morrer para os pecados, mas para o pecado; é por isso que ele é completo num só ato. Morrer para os pecados não é completo e final, mas é algo que prossegue dia após dia. Ele morreu - nós também.
Ele vive nós também. Este deve ser o nosso constante considerar. Nós não temos nada a ver com a cruz, mas temos a ver com o morrer para o pecado. Este é o ensino
claro dessa passagem.
Morte e vida! Alcançamos o positivo através do negativo.
A morte não é o fim, mas o meio pelo qual entramos na vida, e nos tornamos "vivos dentre os mortos". Nosso papel é viver, não morrer, mas morremos para viver e para passarmos mais e mais a uma plenitude de vida muito maior. Cada ponto da vida mais plena se encontra na Cruz.
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