quinta-feira, 4 de abril de 2024

UMA NOTA SOBRE O DICIONÁRIO VINE

Achava-se Jerônimo num deserto do Oriente Médio, por volta do ano 373 de Nosso Senhor,

quando encontrou um judeu que se pôs amorosa e pacientemente, a ensinar-lhe a língua hebraica. Em bora não saibamos o nome daquele professor, o certo é que este levou o dedicado aluno a não somente aprender como também a amar o idioma no qual foi escrito o Antigo Testamento. Já dominando o hebraico, e já capaz de empreender as mais complexas exegeses, Jerônimo mudou-se para Antioquia, onde foi consagrado para o ministério cristão.

Em 396, depois de longas jornadas missionárias e de inestimáveis serviços à Igreja de Cristo, instala-se Jerônimo em Belém de Judá. E, aqui, em companhia de outros ministros, igualmente comprometidos com a ortodoxia e com a erudição bíblica, dá início à obra que o tornaria imortal: a tradução do Antigo e do Novo Testamento para o latim. Nesta tarefa, houve-se ele, juntamente com os seus irmãos de ministério, com suma disciplina e seráfico zelo. Afinal, estava traduzindo a Palavra de Deus para uma gente que. embora Igreja de Cristo, não estava totalmente afeita à sublimidade do pensamento hebreu nem à logicidade da expressão grega.

Entre os prados da Judéia, que ainda ressonavam a lira de Davi e os sublimados poemas de

Salomão, nasce a Vulgata Latina.

Muitas foram as lutas enfrentadas por Jerônimo. Se por um lado, suportava a fúria dos pa­gãos, por outro, via-se às voltas com aqueles que, conquanto se identificassem como irmãos em Cristo, de Cristo já se haviam apartado. E a inclemência do clima do Médio Oriente? De dia a calmaria e o mormaço; de noite, aquela geada que, pouco a pouco, vai enregelando os ossos.

Jerônimo, porém, tinha um ideal; e por este ideal, bateu-se ele até que viesse a lume a Vulgata Latina, que muito auxiliou os crentes romanos a firmarem-se na fé confiada, de uma vez por todas, aos santos.

Não obstante toda a sua erudição, conservava-se Jerônimo com o um humilde servo de Cristo; do Senhor, imitava-lhe todos os gestos e exemplos com o ressalta o insigne escritor português Ramalho Ortigão: "‘S. Jerônimo, o grande lume da Igreja, depunha a pena para lavar os pés aos camelos dos viageiros que lhe pernoitavam no mosteiro” . Até no quebrantamento era Jerônimo um inigualável santo.

De igual modo qualificados, outros homens puseram -se a seguir as pisadas de Jerônimo, a fim de que os seus povos tivessem a Palavra de Deus no vernáculo. O que dizer de Martinho Lutero?

Foi com a sua tradução, bela e perfeita, que nasceu a moderna língua alemã. Hoje, todos evoca­mos Lutero como o grande reformador da igreja do Século XVI. Mas, o que seria da Reforma Protestante sem a sua versão das Escrituras para o germânico? Se a Alemanha é conhecida hoje como a Atenas do Ocidente, devemo-lo ao Dr. Lutero que, através de sua versão da Bíblia, entrou a gramaticar um idioma que, até então, era tido como bárbaro.

E a Versão do Rei Tiago? Tão linda é esta tradução bíblica; tão majestosa e requintada se

ergue esta versão das sagradas letras; tão sublime e sobranceira é esta interpretação do Livro de Deus que, ainda que todos os livros e documentos em língua inglesa desaparecessem , e ficasse apenas a Bíblia do Rei Tiago, seria esta mais do que suficiente para, a partir dela, recompor o idioma de William Shakespeare.

Não teve o português uma gênese tão sacra e sublime. Em sua fase moderna, a última flor do Latium refez-se nos Lusíadas de Camões.

Foi a partir deste épico, que a nossa língua, ainda inculta, posto que belíssima, foi ganhando suas regras e feições definitivas. Até então, não parecia nem português, nem castelhado; era um galego primitivo que lutava por desvencilhar-se dos barbarismos que, desde a saída dos romanos, foram apegando-se aos falares da Península Ibérica até que estes ganharam foros de idioma. Se lermos as crônicas de Fernão Lopes, haveremos de constatar que o idioma falado hoje, pelas nações lusófonas, em nada lembra o português do Século XV.

Ora, se a língua portuguesa tornou-se bela a partir de Camões, como não seria hoje houvera

tido como base uma versão segura e consciente das Escrituras Sagradas? Infelizmente, um a

versão completa da Bíblia em nosso idioma somente viria a público em 1681 através do pastor

português João Ferreira de Almeida. As versões que existiam até então em Portugal eram parciais, e não chegavam a caracterizar um trabalho editorial.

Desde então, vem a Versão de Almeida sendo submetida a revisões periódicas até configurar-

se com o um a grande e singular peça da literatura portuguesa. Infelizmente, a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa ainda não atentaram para a grandiosidade das várias traduções bíblicas que hoje possuímos em português, nem para o avanço que representam estas para o desenvolvimento da expressão cultural lusíada. Os homens de letras seculares parecem ignorar que toda versão da Bíblia é o resultado final de um longo processo de erudição.

Foi pensando nos benefícios da erudição bíblica que a CPAD houve por bem lançar o Dicio­nário Vine. Escrito por W. E. Vine, tornou-se ele num a referência obrigatória a todos os que se dedicam à linguística e à filologia sacras. Dessa forma, terá o leitor fácil acesso às palavras hebraicas e gregas que compõem o vocabulário do Antigo e do Novo Testamento. Apenso a este magistral léxico, um conjunto de ilustrações que, extraído do texto sagrado, mostra toda a evolução do vocabulário bíblico.

Já imaginou se Jerônimo, Lutero ou João Ferreira de Almeida tivessem acesso a uma obra com o Dicionário de Vine?

Que esta obra venha a enriquecer o campo da filologia sagrada nos países de expressão

lusíada, preparando novos eruditos, a fim de que saibam estes com o trabalhar devidamente o

texto sagrado. Somente assim , poderemos manter a qualidade das versões das Sagradas Escrituras em nosso idioma.

A Deus toda a glória!


NOTAS:

Ronaldo Rodrigues de Souza

(Diretor Executivo)

Claudionor Corrêa de Andrade 

(Gerente de Publicações)




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